Crédito para as empresas está “frágil”
Concessão de empréstimos cai 0,1% em maio e atinge todos os setores. Linha de capital de giro encolhe pelo quinto mês seguido

O chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Tulio Maciel, disse que o crédito às empresas está “frágil”.
Em maio, o saldo do crédito com recursos livres para as empresas recuou 0,1%. No acumulado do ano, os financiamentos encolheram 5,2%.
“Desde 2009, auge da crise [financeira internacional], a gente não tinha um recuo mensal de crédito livre às empresas em maio. Isso ilustra a fragilidade em que se encontra o mercado de crédito às empresas, puxando principalmente pelo capital de giro, uma modalidade muito vinculada à atividade econômica”, disse.
Ele afirmou ainda que o capital de giro representa quase 50% dos empréstimos às firmas. Em 12 meses, o saldo dessa modalidade de crédito caiu 8,9% e no mês o recuo ficou em 1,5%. “É o quinto recuo mensal no capital de giro”, disse.
Para Maciel, os juros estão subindo de acordo com a trajetória de aumento consistente e lento da inadimplência e com o ambiente de incertezas no país.
Ele destacou que as taxas de juros estão subindo “puxadas” pelas modalidades de maior risco de inadimplência, como rotativo do cartão de crédito e cheque especial.
CRÉDITO AO COMÉRCIO CAIU 1,4%
Houve variação negativa de abril para maio do estoque de crédito nos três setores de atividade: agropecuária, indústria e serviços. O crédito total recuou 0,1% na margem, para R$ 1,619 trilhão.
A agropecuária recuou 1,1%, a indústria teve baixa de 0,3% e os serviços caíram 0,2%. Apenas o crédito para pessoa jurídica com sede no exterior e créditos não classificados teve elevação, que foi de 4,6%.
O crédito para o setor de serviços ficou em R$ 762,666 bilhões em maio. Dentro desse setor, o comércio teve queda de 1,4% (para R$ 277,531 bilhões) no mês passado. Em transporte, avançou 1,9%, para R$ 161,965 bilhões. Na administração pública, houve baixa de 0,2%, para R$ 121,615 bilhões. A categoria "outros" caiu 0,1%, para R$ 201,556 bilhões.
Para a indústria, o crédito recuou na margem para R$ 793,887 bilhões. Na construção, houve baixa de 1,3% no mês passado, para R$ 106,395 bilhões. A indústria de transformação subiu 0,4%, para R$ 443,227 bilhões. Já os serviços industriais de utilidade pública (SIUP) registraram redução do crédito de 0,6% no mês passado, para R$ 201,261 bilhões. No caso da extrativa, houve uma queda de 3,2% em maio, para R$ 43,004 bilhões.
Para o setor agropecuário, a baixa foi de 1,1% em maio ante abril, para R$ 32,815 bilhões.
CRESCIMENTO MENOR EM 2016
Com queda da atividade econômica e taxas de juros mais altas, o crédito no país deve crescer apenas 1%, este ano, de acordo com projeção do Banco Central (BC), divulgada nesta segunda-feira (27/06).
A estimativa anterior da instituição, divulgada em março, era de crescimento do saldo das operações de crédito concedido pelos bancos de 5%.
Essa taxa de crescimento do saldo total de crédito só será possível devido à expectativa de expansão do crédito direcionado (empréstimos com regras definidas pelo governo, destinados, basicamente, aos setores habitacional, rural e de infraestrutura), que, na previsão do BC, deve apresentar expansão de 3% este ano. A projeção anterior era 7%.
No crédito direcionado estão financiamentos como o da casa própria, crédito rural, microcrédito e empréstimos com recursos do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
No caso do crédito livre, em que os bancos têm autonomia para emprestar o dinheiro e definir as taxas de juros, a expectativa agora é de queda do saldo, este ano, em 1%. A estimativa anterior era crescimento de 2%.
No crédito livre, estão empréstimos como os de cartão de crédito para a compra de veículos, crédito consignado (com prestações descontadas em folha de pagamento) e cheque especial. No caso das empresas, estão incluídos no crédito livre capital de giro, desconto de cheques e antecipação de faturas de cartão, por exemplo.
Em maio deste ano, o saldo de todas as operações de crédito chegou a R$ 3,144 trilhões. Desse total, R$ 1,579 trilhão era de crédito livre e R$ 1,565 trilhão de empréstimos direcionados.
De acordo com Maciel, as novas projeções do Banco Central levaram em consideração todas as informações disponíveis até a última sexta-feira (24), incluindo a decisão dos britânicos de deixar a União Europeia.
O chamado Brexit – união das palavras Britain (Grã-Bretanha) e exit (saída, em inglês) tem levado a oscilações no mercado financeiro, com queda das ações de bancos.
Maciel destacou que a fonte de recursos dos bancos no Brasil para ofertar crédito é “em grande parte” doméstica. Por isso, não há influência do Brexit no mercado de crédito no país.
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*Com Estadão Conteúdo

