Kassab: "Vence a eleição de 2026 quem abraçar o centro"
O presidente nacional do PSD diz que o brasileiro cansou da polarização e que vai buscar uma opção mais moderada. Para ele, Tarcísio seria essa opção, embora o risco de perder São Paulo e a presidência seja preocupante

Considerado um dos maiores estrategistas da política brasileira, Gilberto Kassab, presidente do PSD e secretário de Governo e Relações Institucionais do Estado de São Paulo, afirma que a chave para vencer as eleições presidenciais em 2026 será "abraçar o centro".
Em outras palavras, sua afirmação sugere que o brasileiro cansou da polarização direita-esquerda, percepção também captada em recente levantamento da Quaest, que mostrou que 65% dos eleitores não se identificam com nenhum destes dois espectros políticos.
Na avaliação de Kassab, esse vasto eleitorado que não se sente representado pela polarização busca uma terceira opção, ou, no mínimo, um candidato de comportamento mais moderado. "Se não surgir esse candidato de centro, quem vai ganhar a eleição é aquele que abraçar mais o centro", afirma.
Nesse sentido, diz, o presidente Lula sai na frente. O petista compreendeu o jogo político quando se aliou ao empresário José Alencar, no pleito de 2002, e ao ex-tucano Geraldo Alckmin, na última eleição. “Se Lula governar para o centro, suas chances de vitória são altas.”
Enquanto isso, a oposição busca um nome "moderado" em condições de enfrentar o petista. Para Kassab, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), tem as melhores chances. Ainda assim, ele faz um alerta estratégico. Para o líder do PSD, Tarcísio só deve concorrer à presidência se houver um cenário “muito azeitado".
"Tarcísio é o melhor nome para 2026, tenho nele uma esperança. Mas não podemos perder o governo do estado e, possivelmente, a presidência. Se ele sair candidato, a vitória tem que ser quase certa.” Na avaliação de Kassab, o risco de deixar o governo de São Paulo para uma "aventura presidencial incerta" não compensaria. “Perder São Paulo é algo que não podemos arriscar. A manutenção do poder no estado mais rico da federação é vital para a estabilidade política do grupo."
Caso Tarcísio opte pela reeleição estadual, Kassab vê o governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), como o candidato com maior potencial de crescimento no momento em uma eventual disputa com Lula. Para ele, Ratinho teria mais facilidade em avançar para o centro e aglutinar apoio de outros nomes da direita, condição necessária, segundo Kassab, para chegar ao segundo turno contra o petista.
Além dos governadores de São Paulo e do Paraná, o presidente do PSD destaca nomes secundários para eleições de 2026: os governadores de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), Romeu Zema (Novo), governador de Minas, e Eduardo Leite (PSD), que governa o Rio Grande do Sul.
Independentemente do nome, Kassab avalia que as chances no embate contra Lula aumentam para qualquer candidato que não cometer o erro de avaliação do ex-presidente Jair Bolsonaro. "Bolsonaro perdeu uma oportunidade histórica por não entender que o Brasil, em 2018, votou contra o PT, e não necessariamente por ele (Bolsonaro) ou por seu núcleo ideológico. E perdeu-se na política, abrindo espaço para o retorno de Lula."
Kassab fez as considerações durante a reunião do Conselho Consultivo das Entidades Representativas Parceiras da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), na última quinta-feira (4/12).
Baixo padrão na política - Durante o encontro, Kassab também avaliou a história recente da economia e da política brasileira como uma série de altos e baixos, destacando os 16 anos de estabilidade compreendidos entre os governos FHC e os dois primeiros mandatos de Lula.
No entanto, definiu o cenário atual como preocupante e apontou o “baixo padrão da política brasileira” e a atuação do Congresso Nacional como fontes de instabilidade. Segundo ele, o Congresso hoje prioriza discussões sobre emendas e cargos, em detrimento de grandes políticas públicas.
Ainda segundo Kassab, apesar dos bons índices registrados na economia, com inflação e desemprego em queda, "há riscos fiscais consideráveis, que são agravados pelo fato de o governo Lula ter dificuldades para cortar gastos."
Ele diz acreditar que, embora o governo atual não pareça se preocupar com os números, o desequilíbrio fiscal irá comprometer muito a saúde administrativa do país e do governo federal nos próximos anos. "Não vejo o PT fazendo a lição de casa, caso se reeleja. Lula é bom em investir, gastar, mas não é bom para economizar, cortar gastos”, disse.
Apesar dos desafios, o presidente do PSD se mostrou otimista quanto ao surgimento de uma nova geração de líderes políticos mais preparados nos governos estaduais e municipais, que poderão, no futuro, conduzir o país com mais competência e equilíbrio. Segundo ele, há uma lista suprapartidária de gestores que representam a "política do diálogo".
Para Kassab, o melhor para o Brasil virá de posições ponderadas, distantes dos extremos e focadas na capacidade de gestão e diálogo. Neste rol, ele cita o governador Eduardo Leite, Eduardo Pimentel (PSD), prefeito de Curitiba, Topázio Neto (PSD), prefeito de Florianópolis, Raquel Lyra (PSD), governadora de Pernambuco, Rafael Fonteles (PT), governador do Piauí, e Eduardo Paes (PSD), prefeito do Rio de Janeiro.
Voto distrital - Ao longo de sua apresentação, Kassab reforçou sua defesa em relação à adoção do voto distrital misto como ferramenta para melhorar a qualidade da representação política no Brasil. O sistema combina o voto proporcional, como é feito atualmente, com o voto majoritário em distritos, aproximando eleitores dos seus representantes locais.
Nas palavras de Kassab, esse modelo oferece maior transparência, dá mais legitimidade ao Congresso e fortalece a fiscalização. "Ter um responsável em cada região seria a melhor saída para combater a crise política e melhorar a governabilidade no país."
Alternativa ao governo de SP - Durante o encontro, lideranças de 70 entidades do comércio e da indústria manifestaram suas preocupações com as situações fiscal e regulatória do país e questionaram o presidente do PSD sobre possíveis nomes que devem ser apoiados para a disputa ao governo paulista caso Tarcísio oficialize sua candidatura para presidente.
Embora Kassab tenha se negado a apontar qualquer nome, sob a justificativa de que o "cenário ainda está sendo definido e depende de circunstâncias estaduais e nacionais", Rogério Amato, coordenador-geral do Conselho Superior da ACSP, apontou que há expectativa do empresariado de que esse posto seja assumido por Kassab.
Além de Amato, Roberto Mateus Ordine, presidente da ACSP, Alfredo Cotait Neto, presidente da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp) e da Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB), Guilherme Afif Domingos, secretário de Projetos Estratégicos do Governo do Estado de São Paulo, e Renan Luiz Silva, superintendente de Serviços Institucionais da ACSP, conduziram a reunião, que marcou o encerramento das atividades do ano de 2025 do Conselho Consultivo das entidades representativas parceiras da ACSP.
IMAGENS: Cesar Bruneli/ACSP

