Menos sobremesas, mais miniporções: efeito das 'canetas emagrecedoras' nos restaurantes
Empresários relatam redução nos pedidos de pratos completos e aumento na busca por refeições leves e bebidas não alcoólicas

O aumento no uso das “canetas emagrecedoras”, como Mounjaro e Ozempic, tem mudado o comportamento dos consumidores dentro de restaurantes, que já percebem queda nas vendas de sobremesas e aumento dos pedidos de miniporções.
De acordo com um levantamento da Abrasel (associação que representa os bares e restaurantes), 61% dos empresários do setor atribuem essa mudança no hábito de consumo ao uso de medicamentos para emagrecer.
O estudo aponta que 56% dos empresários perceberam mudança no volume de pedidos de pratos principais e um em cada cinco entrevistados relatou forte redução na demanda por sobremesas. Enquanto isso, cerca de 64% registraram aumento nos pedidos de miniporções e 70% perceberam aumento em pedidos mais leves.
O mesmo ocorre com as bebidas alcoólicas, por terem maior teor calórico. De acordo com a pesquisa, 65% perceberam alterações nos pedidos dessas bebidas e 53% notaram um aumento no consumo de bebidas não alcoólicas.
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É o caso do empresário Diego Menezes, proprietário do Booze Bar, que percebeu uma diminuição nos pedidos de pratos feitos e um aumento em pedidos com mais proteína, e até mesmo de hambúrgueres, por serem menores.
Com essas mudanças, o tíquete médio em relação a pratos feitos saiu de R$ 70 para R$ 25. Além disso, Menezes afirma que o consumo de bebidas alcoólicas diminuiu, com os clientes dando prioridade a bebidas não alcoólicas, como cerveja sem álcool, que, apesar de ter preço semelhante ao das tradicionais, é consumida em menor quantidade, geralmente duas garrafas.
Para atender a essas novas necessidades dos consumidores, Menezes passou a investir em espetinhos de carne e frango, como uma alternativa mais leve para os consumidores que desejam comer em menor quantidade.
O chef Aldo Teixeira, dos restaurantes Forchetta D’Oro e La Terrina, especializados em comida italiana contemporânea, afirma que percebeu mudanças no comportamento dos consumidores nos dois restaurantes. De acordo com o chef, muitos consumidores têm deixado de consumir sobremesas, enquanto outros pedem a entrada, abrem mão do prato principal e já pulam direto para a sobremesa.
“São mudanças sutis no comportamento, que não chegam a alterar de forma significativa o nosso movimento”, diz Teixeira. Por possuir um cardápio com pratos mais leves, como saladas e grelhados, o comportamento dos frequentadores não mudou muito, mas Teixeira afirma que foi possível perceber uma maior procura por entradas e pratos para compartilhar.
Para atender a essa demanda, que Teixeira diz ser pontual, o restaurante tem apostado em sobremesas mais leves e saudáveis, como frutas, e tem até usado frutas em pratos principais.
Mudança não é momentânea
A demanda por produtos mais saudáveis não é novidade no mercado, conforme explica Fernando Cardoso, especialista em foodservice da Consultoria Gouvêa. Desde o pós-pandemia, já existe uma tendência de adoção de um estilo de vida mais saudável. No entanto, Cardoso afirma que as “canetas emagrecedoras” têm acelerado esse movimento.
A redução do apetite dos consumidores, provocada pelos medicamentos, afeta diretamente o consumo, gerando um impacto inegável no setor de bares e restaurantes. Ainda assim, Cardoso diz que é cedo para dimensionar o efeito real desses medicamentos no mercado. “Essas canetas ainda estavam restritas a um grupo muito elitizado e, apesar do uso ter crescido acentuadamente, isso deve aumentar ainda mais com os genéricos. O grande efeito das canetas ainda está por vir”, afirma.
A patente da semaglutida, princípio ativo presente em medicamentos como o Ozempic, expirou no Brasil em março. Com isso, a farmacêutica Novo Nordisk perdeu a exclusividade de comercialização desses produtos, permitindo que outras empresas passem a vender similares. A expectativa, agora, é de redução nos preços.
Segundo Cardoso, as áreas do cardápio mais afetadas pela mudança no comportamento do consumidor são as relacionadas a doces, frituras e bebidas alcoólicas. De acordo com o especialista, os estabelecimentos já vinham se adaptando de forma modesta, ajustando o tamanho das porções, oferecendo diferentes gramaturas de carne em hamburguerias artesanais e ampliando a oferta de produtos.
“Quem ainda não se adaptou precisa começar rapidamente, oferecendo o mesmo produto em tamanhos diferentes”, diz.
Apesar de essa transformação já estar em curso, Cardoso afirma que os estabelecimentos ainda enfrentam o desafio de adaptar os produtos ao novo paladar do consumidor, reduzindo o uso de óleo e substituindo o açúcar por alternativas, como adoçantes.
“Essas pessoas consomem bastante proteína, mas, de repente, não têm apetite para comer mais carne. Então, a solução é oferecer bebidas mais proteicas ou até sobremesas com baixo teor de açúcar”, afirma.
Com isso, muitos estabelecimentos podem começar a firmar parcerias com a indústria, não apenas com fabricantes tradicionais de alimentos, mas também com empresas de suplementos, ampliando a oferta desses produtos no mercado.
Além disso, diante dessa mudança no consumo, Cardoso enxerga uma diluição da participação dos pratos tradicionais no tíquete médio.
Com as transformações no comportamento do consumidor, quem antes ia a um restaurante e pedia entrada, prato principal, sobremesa e bebida alcoólica, passa a optar por um prato único, acompanhado de uma bebida mais proteica e, eventualmente, uma sobremesa com baixo teor de açúcar. Apesar das mudanças, Cardoso ressalta que atendimento e experiência continuam sendo os fatores mais relevantes na decisão de consumo.
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