Atacado cresce 11%, mesmo dividindo consumidor com jogos de apostas e canetas emagrecedoras
O setor faturou R$ 616,6 bilhões em 2025, sendo que 50% do montante é dividido entre 13 grandes empresas, com o Atacadão, responsável por 30%, seguido pelo Grupo Martins, Atacadão Dia a Dia, Tambasa Atacadista e Comercial Zaffari, segundo a Abad

O mercado atacadista distribuidor alcançou faturamento de R$ 616,6 bilhões em 2025, alta real de 11% em comparação com o ano anterior, quando o setor atingiu R$ 443,4 bilhões. Os dados foram divulgados nesta terça-feira, 12/05, pela Abad (Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores), em parceria com a NielsenIQ.
Apesar do crescimento, o setor tem lidado com a desaceleração do consumo das famílias, afetadas por juros, endividamento e inflação, o que tem priorizado gastos com cartão de crédito e jogos de aposta, em vez de despesas ligadas ao abastecimento do lar.
O alto investimento em casas de apostas por parte dos consumidores brasileiros é uma das maiores preocupações do setor. Segundo a pesquisa, os jogos de azar representam R$ 360 bilhões da renda no Brasil. O aumento dos gastos com canetas emagrecedoras também vem ganhando destaque, aumentando a disputa pelo bolso do consumidor e já abocanhando R$ 20 bilhões da renda.
De acordo com Domenico Tremarolli, diretor de atendimento ao varejo na NielsenIQ, cerca de 26% dos lares declaram participar regularmente de jogos de aposta, o dobro do registrado há um ano. Além disso, 49% dos apostadores são motivados pela ideia de aumento da renda. “Já é possível observar que um em cada dez apostadores reduz gastos em casa, principalmente com alimentação, para manter as apostas em jogos de azar”, diz Tremarolli.
Em relação às canetas emagrecedoras, 5% dos lares brasileiros já fazem uso regular dos medicamentos, enquanto 26% pretendem usar as canetas quando tiverem uma condição melhor de renda. O aumento no uso desses medicamentos, apesar de ser visto como uma concorrência pela renda dos brasileiros, também é encarado pelo setor como uma oportunidade para as categorias voltadas à saúde.
Além disso, segundo Tremarolli, os medicamentos tendem a fazer com que os consumidores invistam menos em outros remédios, como medicamentos para pressão alta, fazendo com que essa renda volte para o varejo.
Dados do setor
O setor ampliou sua participação no mercado mercearil nacional, passando de 53,7% em 2024 para 55,9% em 2025. No mesmo período, o mercado de bens de consumo de alto giro atingiu R$ 1,1 trilhão. O setor possui 1.181.640 pontos de venda atendidos, acima dos 1.162.264 registrados em 2024.
O atacado distribuidor responde por 40% das vendas dos grandes supermercados, 68% do pequeno e superpequeno varejo, 95% do varejo tradicional e 85% dos bares.
Em 2025, os modelos de atacado generalista com entrega e agente de serviços foram os que apresentaram maior crescimento, com altas de 8,3% e 9,2%, respectivamente. Apesar disso, o atacado generalista de autosserviço segue liderando a participação no faturamento total do setor, com 36,7%, seguido pelo distribuidor com entrega, que concentra 31,3%.
O atacado generalista com entrega ocupa a terceira posição, com 28,5%, enquanto o atacado de balcão representa 2,7%. Já o agente de serviços, embora com menor participação, apresentou crescimento proporcional relevante. Ao desconsiderar os dados do Atacadão, a leitura do canal indireto mostra uma liderança dos distribuidores com entrega, que concentram 44,5% do faturamento, seguidos pelo atacado generalista com entrega (35%), autosserviço (15,4%) e atacado de balcão (3,9%).
Além disso, 50% do faturamento do setor é dividido entre 13 empresas, sendo o Atacadão responsável por 30%, seguido pelo Grupo Martins, Atacadão Dia a Dia, Tambasa Atacadista e Comercial Zaffari.
Considerando todos os modelos de negócio, as lojas físicas lideram com 38% do faturamento, seguidas pelos representantes comerciais (27%) e pelos vendedores CLT (22%). O dado indica uma mudança em relação a 2024, quando os representantes lideravam as vendas.
De acordo com Domenico, a alta do segmento está ligada ao consumidor que busca diferentes canais em busca de produtos e serviços mais acessíveis, mas também à experiência desses consumidores em diferentes formatos.
Para 2026, a expectativa é de aumento no consumo devido a fatores como a Copa do Mundo e o El Niño no segundo semestre, que tende a elevar as temperaturas e fazer com que as pessoas consumam mais fora de casa.
Escala 6x1
O setor enxerga a mudança da escala de trabalho e a redução da jornada com bastante cautela. De acordo com Leonardo Severini, presidente da Abad, a redução da escala e da jornada de trabalho pode gerar um aumento de 10% a 20% no preço final ao consumidor, devido aos custos operacionais.
“Se essa imposição da escala for sobreposta à redução da jornada de trabalho, o aumento real chega a 20%. Agora, se ocorrer apenas a redução da jornada, o aumento é de 10%. O setor empresarial não tem sido ouvido nessa discussão, e é um setor que carece de produtividade”, diz.
De acordo com o presidente, hoje o setor já enfrenta dificuldade para contratar mão de obra, e, com a redução da jornada de trabalho, essa dificuldade tende a aumentar. Além disso, a baixa produtividade é algo que preocupa o setor.
“O setor defende que é possível reduzir a escala sem alterar a jornada de trabalho por imposição. Nós não somos contra o fim da escala. Temos uma proposta para incluir no projeto de lei a possibilidade de negociação da hora livre", diz.
IMAGEM: divulgação

