Nos corredores de Brasília | Master, frete, 6x1 e outros fantasmas que assombram o Congresso
Enquanto o governo acelera pautas populares às vésperas da eleição, deixando deputados e senadores em uma sinuca de bico, os tentáculos do caso Master escorregam para mais gabinetes de parlamentares

Master na roda
A investigação sobre o Banco Master voltou a assombrar a Câmara dos Deputados com a circulação de uma lista de 11 parlamentares supostamente mencionados no caso. O assunto ganhou temperatura porque o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), já havia afirmado que eventual CPI do Master teria de respeitar a ordem cronológica dos pedidos de comissão. Na Câmara, a leitura é que o caso deixou de ser apenas uma crise financeira: virou instrumento de pressão política sobre o comando da Casa e entrou no jogo de forças que mede até onde Motta consegue controlar a pauta.
Frete a jato
A MP 1.343/2026, que reforça o piso mínimo do frete, avançou em ritmo acelerado na comissão mista. A comissão foi instalada em 9 de junho, com o deputado federal Zé Trovão (PL-SC) designado relator. O relatório foi apresentado em 16 de junho e aprovado ontem (17), com complementações de voto no mesmo dia. No setor produtivo, a leitura é que o texto andou a toque de caixa, sem escuta suficiente de produtores, embarcadores, cooperativas, agroindústrias e indústria.
Medo da boleia
A pressa em aprovar a MP do Frete é atribuída, nos corredores, ao temor de desgaste com caminhoneiros em ano eleitoral. O problema, para quem produz, é que a conta não para na estrada. Qualquer regra que eleve custo logístico chega ao preço dos alimentos, ao escoamento da safra, à indústria e ao consumidor. A medida é vendida como proteção ao transportador, mas pode virar novo componente do custo Brasil.
Davi sob pressão
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), virou alvo de pressão política em torno da escala 6x1. O governo fez da pauta uma de suas vitrines sociais e ampliou a comunicação digital sobre o tema. Parlamentares próximos ao senador já comentam o desgaste da relação com o Planalto. Uma conversa com o presidente Lula vem sendo fomentada por Hugo Motta, que trabalha a pauta do governo.
Máquina ligada
A campanha do governo pelo fim da escala 6x1 expôs o uso da comunicação pública oficial em uma pauta ainda em tramitação no Congresso. A Secom lançou campanha nacional defendendo a medida como garantia de mais tempo para família, lazer, cultura e descanso, com foco nas eleições deste ano.
Freio judicial
A ofensiva digital do governo sobre a escala 6x1 sofreu um freio na 1ª Vara Federal Cível da Seção Judiciária do Distrito Federal, em decisão liminar de primeira instância da juíza federal substituta Pollyanna Kelly Maciel Medeiros Martins Alves. A magistrada atendeu parcialmente ação popular do deputado federal Carlos Jordy (PL-RJ) e determinou que a Secom suspenda, em até 48 horas, o impulsionamento pago de conteúdos sobre o fim da escala 6x1 em plataformas como YouTube, Instagram, Facebook e X. A decisão não impede publicações orgânicas nem pronunciamentos oficiais.
Dinheiro público
O ponto que acendeu o alerta foi o uso de dinheiro público para promover uma proposta legislativa ainda em tramitação no Congresso. Segundo a decisão, o governo teria investido pelo menos R$ 1,5 milhão em anúncios patrocinados sobre o tema, sendo cerca de R$ 881 mil entre 15 e 18 de abril, período coincidente com a votação da matéria na CCJ da Câmara dos Deputados.
CCJ no radar
A tramitação do fim da escala 6x1 segue como um dos pontos mais sensíveis da agenda. No Senado, a expectativa agora se concentra na forma como Davi Alcolumbre vai conduzir o tema, assim como a PEC da Jornada Flexível, apresentada por Rogério Marinho (PL-RN). O tema está na agenda para ser tratado na CCJ, presidida pelo governista Otto Alencar (PSD-BA), no dia 1º de julho. A data importa porque pode marcar nova rodada de pressão entre governo, Senado, oposição e setor produtivo.
Vetos em ebulição
A sessão conjunta do Congresso Nacional marcada para hoje (18) traz uma pauta extensa de vetos presidenciais. Estão na lista vetos sobre reforma tributária, Lei Orçamentária de 2026, Pantanal, crédito à exportação, marco do combate ao crime organizado, microcrédito, cacau, terras em faixa de fronteira, entre outros temas. A sessão promete uma derrota histórica ao governo diante de uma base congressual cada vez menos disposta a apenas carimbar decisões do Planalto.
Recado ao Planalto
A soma dos temas, Master, frete, escala 6x1, propaganda oficial, vetos e agro, mostra um Congresso em estado de combustão. O governo tenta acelerar pautas de alto apelo popular, evitar derrotas na sessão de vetos e segurar a pressão do setor produtivo. Na Câmara, circula a informação de que Motta passou a administrar o custo político de cada pauta. Entre ruralistas, ganhou força a avaliação de que o presidente da Casa pode segurar o projeto de renegociação das dívidas rurais, aprovado no Senado, em sintonia com a resistência do Ministério da Fazenda, comandado por Dario Durigan.
IMAGEM: Dida Sampaio/AE

