PIB cresce, mas dívida pública e endividamento das familias preocupam

Empresários e economistas reunidos para discutir a Conjuntura Econômica na ACSP apontam a expansão da dívida como um obstáculo ao crescimento e um enorme desafio para os próximos anos

Arthur Gebara Junior
26/Jun/2026
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PIB cresce, mas dívida pública e endividamento das familias preocupam

Embora a economia brasileira tenha iniciado 2026 com crescimento de 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre e as projeções apontem expansão entre 1,9% e 2,33% no ano, os empresários e economistas do Comitê de Avaliação de Conjuntura da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), que se reuniram na última quinta-feira (25/06), fizeram um alerta: o avanço da dívida pública, aliado aos juros elevados, compromete os investimentos, aumenta os custos das empresas e representa o principal risco para a sustentabilidade desse crescimento.

O grupo de especialistas, coordenado pelo economista e professor Edy Kogut, vê com cautela as previsões de crescimento do PIB para este ano. Todos são unânimes em apontar a expansão da dívida pública como um dos maiores desafios econômicos do Brasil.

Nos últimos três anos, a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) saltou de 71,7% do PIB, ao final de 2022, para 80,4% em meados de 2026. Em termos nominais, o endividamento superou a marca de R$ 10,4 trilhões, atingindo o maior patamar em quase cinco anos.

Para o Comitê, no entanto, o percentual da dívida em relação ao PIB pode ser ainda maior se for utilizado o método internacional, que utiliza uma métrica de Dívida Bruta incluindo, além do escopo tradicional, os títulos livres da carteira do Banco Central. Isso costuma gerar uma proporção maior em relação ao PIB, algo em torno de 100%, segundo os especialistas. A pedido da ACSP, os nomes dos participantes não são divulgados.

Pec da Transição

Para os membros do comitê, 2026 pode ter mais uma PEC da Transição - aquela que permitiu o gasto adicional do governo de cerca de 145 bilhões, em 2022, via Emenda Constitucional 126/2022. A economia vem apresentando um aumento do gasto, via crédito facilitado para aplicativos que disponibilizam crédito em grande quantidade apesar dos juros altíssimos, deixando claro que há pressão dentro da política monetária.

Agro

O agronegócio brasileiro enfrenta uma crise de insolvência, registrando 1.990 pedidos de recuperação judicial (RJ) no acumulado recente. De acordo com a Serasa Experian, este volume representa um salto de 56,4% em relação ao ano anterior, consolidando o agro como responsável por 30,1% de todas as RJs corporativas do país.

O impacto atinge a base produtiva: os produtores que operam como Pessoa Física (CPF) lideram com 853 pedidos, seguidos de perto por produtores Pessoa Jurídica (CNPJ), com 753 requisições, enquanto outras empresas da cadeia do agro somam 384 processos.

A crise está fortemente concentrada em setores estratégicos e nas principais fronteiras agrícolas do Brasil. No campo, o cultivo de soja lidera o ranking com 243 empresas afetadas, acompanhado pela pecuária de corte (89 casos) e pela cana-de-açúcar (49 processos).

Geograficamente, o epicentro da crise se localiza no Centro-Oeste e no Sul, tendo o Mato Grosso na liderança com 332 pedidos, seguido por Goiás (296), Paraná (248) e Mato Grosso do Sul (216).

Esse cenário é o resultado de uma "tempestade perfeita" que uniu a queda no preço global das commodities, juros historicamente altos e quebras de safra causadas por fatores climáticos, como o El Niño. O endividamento disparou e hoje atinge 8,3% dos produtores rurais e gera um efeito dominó que restringe o financiamento do setor: a liberação de crédito rural recuou 17%, o que representa uma queda de R$ 36,8 bilhões.

Com o crédito mais escasso e caro, os pequenos produtores enfrentam sérias restrições para financiar as próximas safras, o que ameaça elevar o custo de produção e o preço final dos alimentos para o consumidor.

Cenário

Não houve uma grande mudança em relação ao mês passado, mas o que ocorre com o varejo é um cenário de uma certa volatilidade. Mesmo na variação acumulada em 12 meses, isenta de efeitos sazonais, existem altos e baixos, um cenário em que o varejo cresce com taxa mais reduzida.

O varejo mais ligado ao crédito sente mais o peso do endividamento das famílias e dos juros altos. A tendência de crescimento no primeiro trimestre é de 1,7%, uma desaceleração que já significa uma queda em relação a 2024, que estava por volta de 4%. É um pouso suave.

As incertezas fiscais e oalto endividamento das famílias deverão levar a manutenção dos juros altos, apesar do eventual crescimento do PIB, do aumento da renda e maior disponibilidade de recursos. Programas de transferência de renda e do tipo Desenrola devem ajudar na recuperação do crédito contribuir para o aumento do consumo, em taxas baixas, por conta das altas taxas de juros, com impactos diretos no crédito e no consumo.

O cenário econômico apresenta, portanto, um quadro de fragilidade estrutural na economia real e nas contas públicas. De acordo com a Serasa Experian, o Brasil atingiu o recorde de 9 milhões de empresas inadimplentes, sendo 8,5 milhões de micro e pequenas empresas (PMEs), que acumulam R$ 191,8 bilhões em débitos em atraso e movimentam cerca de R$ 120 bilhões.

Essa situação gera um efeito cascata prejudicial, no qual pequenos fornecedores sofrem com a falta de pagamento e com a forte assimetria do mercado de crédito, já que não possuem acesso a mecanismos de financiamento mais baratos, como as debentures.

Sob o peso de juros elevados e incertezas externas, a economia corre o risco de se acomodar em um patamar de crescimento mais baixo, cenário agravado pelo ambiente fiscal e pelo crescimento da dívida pública bruta brasileira aumentando o risco de insolvência e limitando a capacidade de reação a choques internacionais. 

Indústria

A taxa de juros está destruindo as condições das empresas do setor industrial. Elas demonstram enorme dificuldade em fazer novos investimentos em bens de capital, matérias-primas e novos produtos por conta, principalmente, do alto endividamento do setor público. As condições atuais são pouco favoráveis aos investimentos. Apesar disso, a indústria cresce puxada pelo cenário de acréscimo de demanda de 1,7%, resultado das políticas de transferência de renda do governo.

Para o primeiro quadrimestre de 2026, o índice acumulado do total da indústria apontou expansão de 1,7%, e intensificou o ritmo frente ao observado nos quatro últimos meses do ano passado, quando não havia registrado variação. O ganho foi verificado em três das quatro grandes categorias econômicas: bens intermediários, bens de consumo semi e não duráveis e bens de consumo duráveis.

O segmento de bens de capital foi o único que mostrou perda, inclusive permanecendo no campo negativo. Além disso, o grande problema continua sendo a taxa de juros, que vem provocando o aumento da despesa financeira, já na casa dos 45% na indústria.

Veículos

O setor automotivo brasileiro em 2026 registra forte recuperação, acumulando uma alta de 16,4% nas vendas nos primeiros meses do ano, e registrando o maior volume comercializado desde 2013. O mercado é impulsionado pelo aumento da confiança do consumidor, e por um avanço histórico dos veículos eletrificados. Ao todo, são 1,21 milhão de unidades emplacadas em 2026.

Têxtil

Na indústria têxtil, o que vem afetando as vendas é, sem dúvida, o fim da "taxa das blusinhas". Esse imposto sobre os produtos importados da China vem gerando impactos em todo o setor que, embora seja muito grande e tenha vários segmentos, apresenta produção em queda generalizada.

Só para se ter uma ideia, a produção têxtil caiu 2,6%, e a de vestuário, 6,4%, assim como o emprego no setor, que também vem diminuindo. Em consequência, as importações subiram 54%, elevando os juros que dificultam e reduzem a oferta de crédito para as empresas têxteis, prejudicando quem necessita de recursos.

Por isso, muitas indústrias da área têxtil estão se instalando fora do país. Nos últimos anos, 240 fábricas foram para o Paraguai, um dos destinos preferidos para empresários e empreendedores que procuram um ambiente mais amigável para os negócios, com menos impostos e burocracia. As projeções, portanto, não são animadoras, embora o segundo semestre seja historicamente melhor, especialmente com a chegada do inverno.

A utilização do algodão como matéria-prima vem crescendo, mas faltam investimentos e os impostos continuam altos — mesmo considerando a reforma tributária - o que deve estimular a informalidade. O setor busca alternativas no Congresso e nas entidades representativas, mas, de um modo geral, a situação ainda é complicada.

Produtividade

A questão da produtividade, ou da baixa produtividade nas empresas brasileiras, também foi pauta da reunião de Conjuntura. A questão da escala 6x1 pode impactar com maior ou menor grau nos vários setores da economia brasileira. Para o grupo de especialistas, trata-se de uma questão que deveria ser negociada, e não imposta por uma legislação que não pode ser generalizada já que cada setor tem suas próprias características.


IMAGEM: Getty Images

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