Quais são os obstáculos na corrida pela inovação – e como superá-los
Ex-presidente da FINEP e executivos de duas das dez empresas mais inovadoras do Brasil, como Rony Sato, da Basf (foto), comentam os problemas nacionais que entravam essa prática

Já é unanimidade no mundo corporativo que a inovação é um caminho promissor e, sobretudo, estratégico para o crescimento de uma empresa. Porém, como empreendedores e executivos podem lidar com as adversidades do país que entravam o processo de inovação?
“A inovação deve fazer parte da estratégia da empresa, com recursos, estrutura e processos que fomentem essa cultura dentro da companhia”, afirma José Eduardo Fusaro, diretor da filial brasileira da consultoria Strategy&. “Empresas que encontram o equilíbrio entre intenção e esforço para inovar tendem a ter os melhores resultados e ser reconhecida no mercado.”
Em parceria com o jornal Valor Econômico, a Strategy& classificou as cem empresas mais inovadoras do Brasil.
Conversamos com Glauco Arbix, professor de sociologia da Universidade de São Paulo e ex-presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), empresa pública de fomento à inovação, para discutir os gargalos da inovação no Brasil.
Também consultamos executivos da Weg, fabricante de motores elétricos que ocupa a 7ª posição no ranking nacional, e da Basf, uma das maiores empresas do setor químico do mundo e 8ª colocada na lista. Veja:
OBSTÁCULOS
De acordo com o professor Glauco Arbix, que proferiu palestra durante o evento de lançamento do ranking, o Brasil possui quatro dificuldades básicas para gerar inovação. “A primeira é a educação, pois a inovação não vem de máquinas ou computadores, mas sim de pessoas que pensam e transformam ideias em algo real na economia.”
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O professor também cita a precariedade da infraestrutura, como a de logística, que afeta toda a população e as empresas. Outro ponto negativo é o desfavorável ambiente de negócios do país, como a alta carga tributária e burocracia elevada. Por último, o professor afirmou que o Brasil ainda gera pouco conhecimento e tecnologia.
Mas ainda há outro problema que está dentro da própria empresa – muitas companhias não inovam por terem medo de arriscar. “O empresário tem receio de trocar aquilo que é um pouco velho – mas ainda dá certo – por algo novo”, afirma Arbix. “Mas qual é o momento que aquilo que é um pouco velho passa a ser completamente obsoleto? Esse é o dilema das grandes companhias”.
Para Arbix, o caminho da inovação passa por qualificar melhor o funcionário, não manter muitas estruturas hierárquicas –para não sufocar boas ideias que surgem espontaneamente– e trabalhar com parcerias, como instituições de ensino e pesquisa e outras empresas, até mesmo concorrentes.
As startups também podem ser uma boa parceira para o florescimento da criatividade empresarial. De acordo com Arbix, essas empresas lidam melhor com o risco – pois não têm muito a perder.
“Elas não possuem grandes custos com pessoal e estrutura e nem fatia expressiva de mercado”, afirma Arbix. “As grandes podem apoia-las em recursos financeiros e governança visando usufruir de sua capacidade inovadora.”
RESPONSABILIDADE DO GOVERNO
Para Sebastião Lauro Nau, gerente de inovação e pesquisa da Weg, fabricante de motores elétricos, o risco para gerar inovação deve ser compartilhado entre empresa e governo. O executivo afirma que quando uma empresa desenvolve um produto inovador beneficia a sociedade ao solucionar uma demanda dos cidadãos ou das empresas.
Ao mesmo tempo, o faturamento da companhia cresce –o que reflete maior arrecadação de impostos pelo governo. “Então é natural que o governo ajude as empresas inovadoras, pois ele também terá proveitos”, disse Nau.
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O executivo também se diz favorável a que o governo crie programas de médio e longo prazo que apoiem as empresas a montarem equipes e estruturas dedicadas a inovação. Subsídios e incentivos pontuais e intermitentes não geram retorno esperado. “Uma equipe de inovação só começa a mostrar resultados relevantes após, em média cinco anos de trabalho”, afirma Nau. “É fundamental um apoio constante.”
COMO AGIR EM ÉPOCAS DE CRISE
A crise econômica também foi tema de conversas entre os executivos. Um consenso: não é recomendado diminuir os investimentos em pesquisa e desenvolvimento durante um período de turbulência.
“Quando se interrompe uma pesquisa não é possível retoma-la no futuro exatamente do ponto em que parou”, afirma Rony Sato, gerente de tecnologia e inovação da Basf, empresa alemã do setor químico. “Existe um período de inércia antes da recuperação.”
O executivo afirma que a Basf não reduziu nenhum dispêndio em inovação – lição adquirida durante a crise global de 2008.
Em 2014, a Basf investiu 1,884 bilhão de euros em inovação -- quase 2% a mais do em 2013. O montante representa cerca de 2,5% do faturamento global da companhia, que somou 74,3 bilhões de euros. Na América do Sul, a companhia destinou à pesquisa e desenvolvimento 1% de suas receitas, que somou 3,715 bilhões de euros.
Em 2025, a empresa espera que a região atinja receitas de 9 bilhões de euros – desse total, cerca de um terço deverá ser proveniente de inovação desenvolvida regionalmente, que também engloba o Brasil.
“A ideia é não perder os investimentos que a empresa fez em capacitação e programas de fomento a inovação dentro e fora da companhia”, afirma Sato.



