Ricardo Laurino, da SVB: "Grandes varejistas estão cada vez mais lançando produtos à base de plantas"
Para 2028, expectativa é que mercado global de produtos vegetarianos e veganos ultrapasse US$ 34 bi
(Freepik)
SVB: 46% dos brasileiros deixam de comer carne pelo menos uma vez por semana e um terço já procura opções veganas nos cardápios
"Aumena o público flexitariano, pessoas que não são vegetarianas ou veganas, mas que reduzem o consumo de carne"
Por Bruna GalatiCompartilhe:
[AGÊNCIA DC NEWS]. O mercado de produtos vegetarianos e veganos cresce em todo o mundo. Para 2028, a expectativa é que ultrapasse US$ 34 bilhões, segundo levantamento da consultoria SkyQuest. O crescimento constante é resultado da mudança nos hábitos de consumo e a busca por alternativas sustentáveis e saudáveis. De acordo com uma pesquisa do Ipec, encomendada pela Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), 46% dos brasileiros deixam de comer carne pelo menos uma vez por semana. Além disso, um terço dos consumidores já procura opções veganas em cardápios de restaurantes e lanchonetes. “As grandes varejistas estão percebendo o potencial desse segmento e, cada vez mais, lançam linhas próprias de produtos à base de plantas”, afirmou Ricardo Laurino, vice-presidente da SVB, organização sem fins lucrativos fundada em 2003, que promove a alimentação vegana. Confira a entrevista.
AGÊNCIA DC NEWS – Qual é o tamanho do mercado vegetariano e vegano no Brasil atualmente, e quanto ele cresceu nos últimos anos? RICARDO LAURINO – Nos últimos dez anos, o mercado vegetariano e vegano tem crescido, em média, a taxas de dois dígitos anuais.
AGÊNCIA DC NEWS – Há espaço para continuar crescendo nesse ritmo? RICARDO LAURINO – A tendência é que esse ritmo continue. Hoje, estima-se que 14% dos brasileiros sejam vegetarianos. Dados mais recentes indicam que somente o mercado de carnes vegetais alcançou R$ 1 bilhão em faturamento anual. Esse marco, que era esperado para 2026, foi atingido já em 2023. Além disso, o mercado de leites vegetais já ultrapassa centenas de milhões de reais, mostrando crescimento robusto.
AGÊNCIA DC NEWS – Qual o perfil do público? RICARDO LAURINO – Notamos um interesse crescente entre jovens, que são os principais adeptos do movimento vegano. Contudo, também temos visto adultos e idosos aderindo, muitas vezes motivados por recomendações médicas para reduzir o consumo de produtos de origem animal. Isso reflete uma busca por saúde e bem-estar. Além disso, há um aumento do público flexitariano, que inclui pessoas que não são vegetarianas ou veganas, mas que estão reduzindo o consumo de carne e explorando mais opções à base de plantas.
AGÊNCIA DC NEWS – Quais categorias de produtos à base de plantas têm ganhado mais força no varejo? RICARDO LAURINO – As carnes vegetais, especialmente os hambúrgueres, e os leites vegetais continuam liderando o mercado. Além disso, temos observado aumento na oferta de queijos vegetais, que têm surpreendido consumidores tanto pela similaridade com os queijos tradicionais quanto pela inovação em sabores e texturas.
AGÊNCIA DC NEWS – Produtos à base de plantas costumam ser mais caros que os tradicionais. Há mudanças no mercado para torná-los mais acessíveis? RICARDO LAURINO – Essa percepção de preços mais altos tem fundamento em algumas categorias devido à escala menor e à falta de incentivos governamentais para produtos de origem vegetal. No entanto, a alimentação vegana em sua base — como arroz, feijão, frutas e legumes — é acessível. Em termos de produtos industrializados, estamos vendo uma redução gradual nos preços à medida que o mercado cresce e ganha mais escala.
AGÊNCIA DC NEWS – Como o varejo tradicional está entrando nesse mercado? RICARDO LAURINO – As grandes varejistas estão percebendo o potencial desse segmento e, cada vez mais, lançam linhas próprias de produtos à base de plantas. Muitas delas têm adotado estratégias que buscam surpreender o consumidor, criando produtos únicos e diferenciados, em vez de simplesmente replicar produtos já existentes. É o caso da Fini, que lançou uma linha de balas veganas. Ninguém imaginava que era possível fazer balas veganas.
AGÊNCIA DC NEWS – O mercado vegano ainda enfrenta desafios culturais e sociais no Brasil? RICARDO LAURINO – Sim, ainda há uma pressão social significativa. Muitas pessoas enfrentam resistência até mesmo dentro de suas famílias, que, por falta de informação, questionam a decisão de adotar uma alimentação baseada em vegetais. Comentários como ‘você vai ficar sem proteína’ são comuns e refletem mitos que ainda persistem. Além disso, há um receio de julgamento no ambiente social, entre amigos e colegas. Isso não é uma queixa, mas sim um diagnóstico de como nossa sociedade funciona. Esse tipo de pressão acaba freando o potencial de crescimento do mercado, mesmo que ele continue avançando.
AGÊNCIA DC NEWS – O que pode ajudar a superar esses desafios? RICARDO LAURINO – Em primeiro lugar, é necessário aumentar a conscientização sobre a viabilidade de uma alimentação à base de vegetais e seus benefícios. Muitas pessoas não querem se tornar veganas, mas podem reduzir significativamente o consumo de produtos de origem animal. Outro ponto é combater questões como preço elevado em algumas categorias de produtos e promover maior aceitação social.
AGÊNCIA DC NEWS – O que é de certa forma esperado, até por ser um segmento relativamente recente, não? RICARDO LAURINO – Sim. É importante lembrar que o mercado vegano ainda é muito novo. Há apenas uma década, nem sequer se falava de carnes e leites vegetais como opções disponíveis. Já existiam alguns produtos, mas eles eram vistos como especiais, para pessoas que tinham alguma intolerância. Então tem essa questão da maturação do desenvolvimento dos próprios produtos. Mas quem é empreendedor sabe que quanto mais desafios, maior o mercado para se explorar.
AGÊNCIA DC NEWS – Como o mercado vegano impacta o meio ambiente? RICARDO LAURINO – O impacto ambiental da produção de produtos de origem animal é enorme. Desde emissões de gases que provocam o efeito estufa até desmatamento e uso excessivo de recursos naturais. Os danos são múltiplos. Para se ter uma ideia, a área usada para criar animais e produzir ração equivale a dois continentes – a África e a Europa. Além disso, a ineficiência do sistema é evidente: de cada dez calorias que os animais consomem, eles retornam apenas de uma a três calorias em forma de alimento. Em comparação, os produtos à base de vegetais têm uma pegada ambiental muito menor e representam uma solução para reduzir esses impactos.
AGÊNCIA DC NEWS – Qual o papel da SVB para estimular o mercado de produtos veganos? RICARDO LAURINO – Temos diversos projetos, como o programa de certificação de produtos veganos, que já certificou mais de 4 mil itens, e o programa Opção Vegana, que ajuda estabelecimentos a incluir opções veganas em seus cardápios. Além disso, promovemos eventos como o VegFest, que reúne consumidores, produtores e varejistas, além de palestras e cursos para capacitar empresas interessadas nesse mercado.
AGÊNCIA DC NEWS – Quais são as expectativas para o mercado vegano nos próximos anos? LAURINO – No futuro, podemos esperar inovações como o uso de micélio –material derivado de fungos – na produção de alimentos e a introdução de caseína vegetal, que permite que queijos veganos tenham a mesma textura elástica dos produtos tradicionais. Outra inovação promissora são as impressoras 3D de carnes vegetais, que permitem criar produtos personalizados em textura e formato.
Laurino, da SVB: entre as inovaçõies, impressoreas 3D de carne vegetal (Divulgação)