[SÉRIE Vozes da Economia] Sobral, economista-chefe da Neo Investimentos: "Juros reais acima de 10% vão levar a uma recessão"

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Para Sobral, a divisão entre lulismo e bolsonarismo deixa pouco espaço para uma agenda consensual
(Andre Lessa / Agência DC News)
  • Crédito caro empurra pequenas empresas para o “modo sobrevivência” e freia planos de expansão das grandes
  • Crescimento de 2% mascara fragilidades como a baixa produtividade e o nvestimento insuficiente para um avanço robusto do PIB
Por Nathalia Lino

[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
Com juros reais acima de 10% e a Selic em 15%, a economia brasileira entra em 2026 sob forte pressão do crédito, baixa previsibilidade fiscal e incertezas eleitorais, cenário que tende a limitar investimentos, desacelerar a criação de empregos e frear a expansão do consumo. É o que aponta o economista-chefe da Neo Investimentos, Luciano Sobral, em entrevista à DC NEWS. “O que me preocupa é que, com juros reais acima de 10%, entraremos em recessão”, disse. Segundo ele, os juros elevados são, ao mesmo tempo, um problema estrutural do país e um fator conjuntural agravado pelas escolhas recentes de política econômica, com efeitos diretos sobre investimento, crédito, crescimento e mercado de trabalho. A entrevista com Sobral integra a Série Vozes da Economia.

Para o especialista, apesar do ambiente restritivo, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) não está abaixo do padrão histórico brasileiro, que ele classifica como “que é baixo”. Segundo o IBGE, no terceiro trimestre do ano passado, a proporção estava em 17,3%, em linha com os últimos quatro anos. Para o economista, modalidades de crédito direcionado e isento de impostos “têm compensado, de alguma maneira” o estímulo ao investimento, ainda que Selic esteja alta. De acordo com ele, esse resultado é sustentado por choques positivos no setor primário e pelo aumento das transferências governamentais, o que “mascara as fragilidades habituais da economia”, como baixa taxa de investimento e problemas de produtividade.

O impacto dos juros altos, para Sobral, é mais pesado em pequenas e médias empresas, que costumam pagar spreds maiores e contam com menos alternativas de financiamento. Nesse contexto, quem pretende crescer pode ser levado ao modo sobrevivência. Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho segue sustentando o consumo e vem evitando uma “recessão”, com nível de emprego acima do esperado. Para 2026, o especialista acredita que a criação de vagas “deve arrefecer” e que a taxa de desemprego tende a parar de cair.  Segundo ele, a autonomia do Banco Central também pode ajustar a política monetária para manter a inflação ao redor da meta. Em um cenário de economia aquecida, um BC independente “não tem como reagir” de forma diferente a elevar os juros. Confira a entrevista.

AGÊNCIA DC NEWS – Juros altos ainda são conjunturais ou viraram problema estrutural?
LUCIANO SOBRAL –
As duas coisas: juros altos são um problema estrutural do Brasil, e a conjuntura tem os mantido em patamar ainda mais alto do que o habitual pós-plano real.

AGÊNCIA DC NEWS – O empresário já desistiu de investir ou só está esperando?
LUCIANO SOBRAL –
Pelos dados de contas nacionais, a taxa de investimentos como proporção do PIB no Brasil não está abaixo do padrão histórico (que é baixo). As modalidades de crédito direcionado e isento de impostos possivelmente têm compensado, de alguma maneira, as taxas de juros altas.

AGÊNCIA DC NEWS – Quem mais sofre: quem quer crescer ou quem só quer sobreviver?
LUCIANO SOBRAL –
As duas coisas andam juntas: quem quer crescer pode ser levado ao modo de sobrevivência, que, por si só, é mais difícil com taxas de financiamento tão altas. O ambiente como um todo, de juros altos e baixa previsibilidade sobre a conjuntura depois das eleições, não é um bom incentivo para crescimento.

AGÊNCIA DC NEWS – O crédito subsidiado distorce ou salva?
LUCIANO SOBRAL –
Também as duas coisas: distorce a alocação de capital como um todo, mas pode salvar os setores beneficiados.

AGÊNCIA DC NEWS – Como deve se comportar o crédito em 2026?
LUCIANO SOBRAL –
Por conta dos juros altos e da incerteza eleitoral, não deve ser um ano de grande expansão do crédito. As perspectivas melhorariam se houvesse a expectativa de cortes profundos na Selic, mas isso ainda não está claro se vai se materializar.

AGÊNCIA DC NEWS – No ano passado, mesmo com a selic alta, a oferta de crédito para pessoa física e jurídica seguiu em trajetória de alta (ainda que em ritmo menor) o que isso significa?
LUCIANO SOBRAL –
O Brasil está passando pelo processo conhecido como “financial deepening”, no qual o aumento da oferta de produtos financeiros (e de participantes do mercado) e do seu alcance na população faz com que o crédito se expanda mesmo com taxas de juros altas.

AGÊNCIA DC NEWS – Por que o Brasil não consegue conviver com um juro baixo por longos períodos?
LUCIANO SOBRAL –
Sobretudo, na minha opinião, porque não consegue adotar um modelo macroeconômico estável e dar previsibilidade para a trajetória de gastos do governo. A política econômica é muito ligada ao ciclo eleitoral, que é relativamente curto – sobretudo com os últimos governos, desde a saída de Dilma, não terem continuidade com a reeleição.

AGÊNCIA DC NEWS – O juro alto controla a inflação, mas arrefece a economia. Como encontrar o meio termo ideal?
LUCIANO SOBRAL –
No regime de metas de inflação, os juros são o instrumento mais relevante sob controle do banco central. Um equilíbrio melhor dependeria do engajamento de todo o governo no combate à inflação, o que poderia baixar a taxa de aumento dos preços para qualquer nível de juros. Não houve, nos últimos anos, nenhuma grande iniciativa de desindexação ou de melhora da oferta de bens públicos (como, por exemplo, eletricidade) para a população como um todo. Tampouco houve preocupação com a reação do mercado à política fiscal expansionista.

AGÊNCIA DC NEWS – A autonomia do Banco Central ajudou nesse processo atual de juro alto enquanto o governo tentava estimular a economia?
LUCIANO SOBRAL –
A autonomia do Banco Central implica em ajustar a política monetária para que a inflação fique ao redor da meta estabelecida pelo CMN, dadas as condições da economia. Um banco central independente não tem como reagir de forma diferente a aumentar os juros se a economia está superaquecida.

AGÊNCIA DC NEWS – Qual foi o maior acerto do Campos Neto?
LUCIANO SOBRAL –
Fomentar uma agenda de inovação de classe mundial, da qual o Pix é o filho mais conhecido.

AGÊNCIA DC NEWS – Qual foi o maior acerto do Galípolo?
LUCIANO SOBRAL –
Por ora, conquistar credibilidade junto ao mercado, tomando decisões difíceis (como aumentar os juros) que reafirmam a independência do Banco Central.

AGÊNCIA DC NEWS – Qual foi o maior acerto do Galípolo?Qual foi o maior erro do Galípolo?
LUCIANO SOBRAL –
O mais evidente, por ora, foi certa demora na resolução da situação do Banco Master (amenizada pelo fato de que o problema foi herdado do antecessor).

AGÊNCIA DC NEWS – O que o Banco Central olhará em 2026 para mensurar suas taxas? (cenário externo, interno, eleições, preços futuros)
LUCIANO SOBRAL –
Sobretudo o cenário de inflação doméstica (tanto realizada quanto expectativas) e o comportamento da atividade econômica.

AGÊNCIA DC NEWS – Como os juros altos têm impactado as empresas como um todo?
LUCIANO SOBRAL –
Os juros altos pesam diretamente sobre o custo de capital e da despesa financeira das empresas, fazendo com que sobrem menos recursos para remunerar os acionistas e/ou para planos de expansão. Isso faz com que o crescimento da economia seja limitado, com reflexos para o emprego. Ainda que a taxa de desemprego esteja nas mínimas históricas, provavelmente o mercado de trabalho estaria ainda mais forte com juros menores.

AGÊNCIA DC NEWS – Esse reflexo é mais pesado entre as PMEs?
LUCIANO SOBRAL –
Sim, já que estas tipicamente pagam spreads maiores (que costumam também aumentar junto com a taxa Selic) e menos alternativas de financiamento (não acessa, por exemplo, o mercado global de crédito).

AGÊNCIA DC NEWS – Quais sinais o governo federal poderia dar que ajudariam no processo de redução da Selic?
LUCIANO SOBRAL –
O sinal mais importante a esta altura seria o comprometimento com uma agenda de ajuste fiscal em caso de um novo mandato, mas é bem pouco provável que isso ocorra no ano eleitoral.

AGÊNCIA DC NEWS – Com a Selic ainda em dois dígitos e cortes monetários incertos em 2026, o Brasil está à beira de um ‘novo normal’ de juros altos ou há espaço real para quedas que mudem o ciclo de investimento e crédito?
LUCIANO SOBRAL –
Há muito espaço para que os juros caiam, mas ainda não se sabe se há interesse na agenda que levaria a isso no próximo mandato presidencial. A escolha até agora foi aumentar os gastos do governo incondicionalmente, mesmo que o custo disso apareça nos juros. Para que os juros caiam de forma estrutural, essa orientação precisa mudar.

AGÊNCIA DC NEWS – Ano de eleição frequentemente comprime o ajuste fiscal — você vê o Brasil caminhando para mais garantias de credibilidade nas contas públicas ou para mais gastos?
LUCIANO SOBRAL –
Os gastos do ano eleitoral estão praticamente todos contratados. Não tenho clareza para o futuro, que vai depender, em grande medida, de qual governo será eleito neste ano. O mercado vai forçar um ajuste fiscal em 2027 em todo caso, o custo desse ajuste pode ser maior ou menor a depender de qual será o discurso adotado depois das eleições.

AGÊNCIA DC NEWS – Com crescimento global moderado e riscos geopolíticos intensos, o Brasil pode atrair capital produtivo ou está fadado a fluxo de curto prazo e fuga em choques?
LUCIANO SOBRAL –
Até agora, o ambiente global no governo Trump II tem sido favorável para o Brasil e outros emergentes, com juros em dólar mais baixos e a desorganização política americana incentivando investimentos fora daquele país. A atração de capitais para além do curto prazo depende do esforço do governo em criar um ambiente melhor de negócios. Não se viu muito desse esforço no governo Lula III.

AGÊNCIA DC NEWS – Crescimento de 2% (ou algo em torno disso) pode mascarar fragilidades na economia real — você diria que o PIB está inflado por choques setoriais ou que ele de fato traduz uma base na atividade econômica atual?
LUCIANO SOBRAL –
O crescimento potencial de longo prazo do Brasil, na minha visão, é algo menor que 2%, talvez mais próximo de 1,5%. O crescimento tem se sustentado ao redor de 2% por conta dos choques positivos de oferta no setor primário (agro e outras commodities) e pelo aumento contínuo das transferências do governo para os cidadãos. Isso de fato mascara as fragilidades habituais da economia, como baixa taxa de investimento e baixa qualidade da educação.

AGÊNCIA DC NEWS – Se o crédito segue caro, a produção ainda não engrena e o consumo está embrulhado em cautela, qual seria a ‘verdadeira causa raiz’ que a maioria dos diagnósticos ignora — e por quê?
LUCIANO SOBRAL –
Não vejo uma grande “causa raiz” ignorada. O que precisa ficar claro é que o crédito caro é consequência direta de escolhas na condução da política econômica: o governo tomou medidas que, previsivelmente, encareceriam o crédito para seguir com sua agenda de aumento de gastos. Da mesma forma, escolhe isentar algumas modalidades de crédito, beneficiando alguns setores e empresas em detrimento do sistema financeiro como um todo. Tudo isso pode ser revertido em relativamente pouco tempo, depende de um plano econômico diferente e de mobilizar o Congresso nessa direção.

AGÊNCIA DC NEWS – Qual é hoje a maior fonte de incerteza econômica — política fiscal, política monetária, cenário eleitoral ou economia internacional? Como ela se traduz na economia real?
LUCIANO SOBRAL –
As principais fontes de incerteza econômica hoje são as eleições locais e Donald Trump. A polarização e a perspectiva de uma eleição competitiva encurtam muito o horizonte de planejamento – é impossível construir um cenário para os próximos quatro anos não condicionado ao vencedor das eleições, e isso, por si só, inibe ou pelo menos adia as decisões de investimento. Globalmente, a economia até passar por um momento bom, mas a principal economia do mundo tem um líder completamente inconsequente e imprevisível, que tem atuado com poucos freios institucionais.

AGÊNCIA DC NEWS – O mercado de trabalho ainda está sustentando o consumo, como o emprego deve se comportar em 2026?
LUCIANO SOBRAL –
Sim, o mercado de trabalho tem sido uma fonte de resiliência para o consumo, com o nível de emprego surpreendendo há bastante tempo. Em 2026, ainda sob juros muito altos, esperamos que a criação de emprego arrefeça e que a taxa de desemprego pare de cair. A massa salarial real ainda deve contribuir para o consumo, mas em menor medida do que nos últimos anos.

AGÊNCIA DC NEWS – Se você tivesse que apontar um entrave principal do Brasil hoje, qual seria — e por que ele domina todos os outros?
LUCIANO SOBRAL –
O principal entrave atual é a polarização política e suas consequências para as decisões de política econômica. A divisão do eleitorado entre lulismo e bolsonarismo deixa muito pouco espaço para agendas consensuais, reduz o horizonte de planejamento (porque as políticas sempre podem oscilar radicalmente pós-eleições) e aumenta o poder de atores políticos que não têm nenhum interesse em uma agenda nacional.

AGÊNCIA DC NEWS – Qual é o consenso econômico mais repetido hoje que você acha que está errado — e por quê?
LUCIANO SOBRAL –
Acho que não chega a ser um consenso, mas, para mim, é errada a visão de que o Brasil está condenado a ter os juros reais mais elevados do planeta. Há uma agenda relativamente simples para que as taxas caiam a patamares parecidos com o de outros países em desenvolvimento.

AGÊNCIA DC NEWS – O Brasil está com Selic de 15%: qual é o custo invisível disso na economia real que ainda não entrou no debate público?
LUCIANO SOBRAL –
O custo visível e pouco discutido é quanto os juros altos transferem recursos públicos para as camadas mais ricas da população em detrimento do investimento público. Nesse sentido, a política mais progressista que se poderia imaginar é uma agenda para reduzir o custo de financiamento do país, o que passa por entender e colaborar com o mercado financeiro, em vez de antagoniza-lo.

AGÊNCIA DC NEWS – Muito se fala em investimento em tecnologia, quebra de barreiras, indústria 2.0. Na sua opinião, as empresas brasileiras estão ficando mais produtivas — ou por enquanto apenas mais caras?
LUCIANO SOBRAL –
Tipicamente, as grandes empresas brasileiras são tão produtivas quanto suas concorrentes globais, e o problema de produtividade é concentrado em pequenas e médias empresas. Não imagino que isso esteja sendo resolvido, por tudo que já foi discutido aqui. O Brasil segue investindo pouco, e as escolhas setoriais são no mínimo discutíveis. Há pouco sendo feito de forma horizontal, para melhorar o ambiente de negócios e a produtividade em todo país.

AGÊNCIA DC NEWS – O Brasil está preparado para um choque externo (Trump, China, dólar, tarifas) ou segue reagindo tarde e improvisando?
LUCIANO SOBRAL –
O Brasil tem boas instituições na condução da política externa e econômica, e tem, na minha visão, lidado bem no equilíbrio entre o governo Trump e a China, que é, de longe, o parceiro comercial mais relevante. É muito difícil tomar ações preventivas contra riscos que ainda são pouco conhecidos. O que poderia ser feito é aumentar o espaço para que se possa reagir de forma contracíclica – por exemplo, abrir espaço no orçamento público para que este possa ser aumentado em tempos de crise. Esse planejamento está longe de ser feito; há muito a política fiscal brasileira é planejada para o maior nível de gasto possível, independentemente do ciclo econômico.

AGÊNCIA DC NEWS – Qual o dado do Brasil que hoje mais te preocupa? (Selic, PIB, emprego, juros…)
LUCIANO SOBRAL –
Juros reais de mais de 10%, que, se continuarem prevalecendo por muito tempo, vão levar a uma recessão.

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