A muralha fiscal de 2026: por que a gestão pública brasileira está em xeque-mate?
O próximo governo não terá o luxo do erro. Ou enfrenta as reformas estruturais e a desvinculação orçamentária, ou o país continuará a patinar em voos de galinha, enquanto a dívida consome o futuro das próximas gerações

Ao longo de mais de três décadas atuando como executivo, aprendi que a saúde de qualquer organização não é medida apenas pelo que arrecada, mas pela qualidade e sustentabilidade de como ela gasta. No setor privado, o descumprimento de fundamentos básicos de governança leva à insolvência. No setor público, o processo é mais lento e doloroso, manifestando-se através da estagnação econômica e da erosão da confiança.
Hoje, em 28 de abril de 2026, o Brasil encontra-se em um estado de 'xeque-mate' fiscal. Não se trata de uma crise passageira, mas de uma muralha estrutural que ignora ciclos ideológicos e exige uma confrontação técnica imediata. Recentemente, o mercado observou o anúncio de um superávit primário de R$ 87,3 bilhões em janeiro de 2026; em fevereiro, negativo R$ 29,5 bilhões, com saldo bimestral positivo em R$ 57,8 bilhões.
Para o observador desatento, o dado sugere fôlego. Para o gestor acostumado à análise de balanços, é uma miragem que mascara a volatilidade e a tendência de déficit estrutural. A realidade é desenhada por indicadores mais profundos e preocupantes publicados pelo Tesouro Nacional e pelo Banco Central. A despesa com pessoal do Poder Executivo Federal atingiu a marca de R$ 284 bilhões no fechamento do 3º quadrimestre de 2025, o que representa 18,7% da Receita Corrente Líquida (RCL).
Quando somamos a isso a Selic em 15% (patamar de dezembro de 2025), compreendemos que o Brasil paga hoje o "preço da desconfiança de curto prazo". Os juros elevados não são apenas uma ferramenta de controle inflacionário, mas o prêmio de risco exigido por investidores diante de um governo que não consegue sinalizar o controle de sua própria máquina.
O conceito de gestão pressupõe a capacidade de alocar recursos de forma estratégica. No entanto, o gestor público brasileiro opera hoje de "mãos atadas". Atualmente, cerca de 95% das despesas do Orçamento Geral da União são obrigatórias. Isso significa que, independentemente da competência ou da vontade política, o espaço para investimentos em infraestrutura, tecnologia e inovação — os verdadeiros motores do PIB — é residual.
Essa rigidez é alimentada por "bombas relógio" fiscais. Um exemplo contundente é a projeção dos gastos com o Benefício de Prestação Continuada (BPC), que deve atingir 1,4% do PIB até 2035. Sem reformas profundas na indexação e na estrutura de benefícios, o orçamento torna-se uma peça de ficção contábil, onde se gasta muito para manter uma estrutura que entrega pouco.
Vejo um problema que precede a economia: a falta de Data Integrity. No setor privado, o compliance e a LGPD elevaram o padrão de transparênciae responsabilidade sobre os dados. No setor público, ainda vivemos sob uma "névoa fiscal". A opacidade na granularidade dos gastos e a falta desistemas integrados que permitam o accountability em tempo real são inaceitáveis para os padrões tecnológicos atuais.
É justamente para combater essa névoa que convido você a conhecer o Ga$to Brasil. O site expõe, de forma clara e didática, os gastos primários do Governo Central e do Banco Central, permitindo que qualquer cidadão audite a realidade dos números que apresento aqui. A transparência digital é a única ferramenta capaz de romper a barreira da desinformação fiscal.
Enquanto as empresas são auditadas sob critérios rigorosos de ESG e governança, o setor público muitas vezes se socorre de uma "contabilidade de exceção". A ausência de indicadores de desempenho (KPIs) claros para o gasto social impede que saibamos se o aumento da despesa está, de fato, reduzindo a desigualdade ou apenas alimentando a ineficiência burocrática.
Estamos em ano eleitoral. Contudo, a análise técnica desapaixonada revela que, seja qual for o presidente que assuma o mandato em 2027, ele herdará uma economia estagnada. O PIB de 2,3% realizado para 2025 foi insuficiente para um país com as nossas carências estruturais.
O próximo ocupante do Planalto enfrentará a "Muralha de 2026": um cenário de juros altos, dívida pública em ascensão e um orçamento sem qualquer margem de manobra. A estagnação não é um acidente; é o resultado de um modelo que prioriza o custeio da máquina em detrimento da capacidade produtiva.
O próximo governo não terá o luxo do erro. Ou enfrenta as reformas estruturais e a desvinculação orçamentária, ou o país continuará a patinar em voos de galinha, enquanto a dívida consome o futuro das próximas gerações. Temos o dever moral de expor a ineficiência.
A diplomacia institucional não pode servir de escudo para o descaso fiscal. O Brasil precisa de uma ruptura definitiva com o modelo de "gastar primeiro e arrecadar depois". A verdadeira justiça social não nasce do aumento do gasto público descontrolado, mas da eficiência na alocação de recursos e da integridade na gestão dos dados. O "xeque-mate" está posto. A pergunta que resta não é quem ganhará as eleições, mas se quem ganhar terá a coragem de derrubar a muralha que impede o Brasil de crescer.
**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio**
IMAGEM: Rebeca Ribeiro

