Zema: 'Nosso objetivo como centro-direita é tirar o PT do poder'
Em entrevista ao Diário do Comércio, o ex-governador de Minas Gerais e pré-candidato à presidência defende livre negociação trabalhista, detalha sua estratégia de desburocratização inspirada no modelo mineiro e reafirma sua postura de combate ao sistema tradicional de 'privilégios políticos'

Empresário do varejo e ex-governador de Minas Gerais que acaba de renunciar para concorrer à presidência da República, Romeu Zema projeta agora sua gestão para o plano federal com discurso focado na desburocratização e no combate ao que define como 'vícios' da classe política tradicional. Para ele, sua trajetória é 'o diferencial' para enfrentar os problemas do país.
“Sempre fui empresário. Não faço parte do sistema e vou combatê-lo", disse, em entrevista ao Diário do Comércio. Zema é o palestrante convidado da reunião de abril do Conselho Político e Social (Cops) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), a casa do empresário, que será realizada nesta segunda-feira, 13/04, às 10h.
Indiferente às críticas por seu modelo de gestão no estado, Zema sustenta que o sucesso do seu mandato, que atraiu bilhões em investimentos, segundo afirma, mostra que é preciso facilitar a vida do empreendedor. "Eles são a marcha forte do país.”
Nesta conversa, o pré-candidato analisa temas polêmicos como a PEC da jornada 6x1, a qual classifica como uma “lista de desejos sem fundamento”, opina sobre o voto distrital e rebate críticas sobre a dívida pública mineira, afirmando que ela não aumentou em sua gestão; "o que aumentaram foram os juros dessa dívida”, diz, resultado de gestões anteriores.
Afirmando que o objetivo declarado da centro-direita é se unir para “acabar com o PT e tirá-lo do poder”, independentemente de qual for o candidato mais forte do seu espectro político para disputar o cargo mais alto do país com o presidente Lula, o pré-candidato garante que apoiará tanto Ronaldo Caiado (PSD-GO) quanto Flávio Bolsonaro (PP-RJ), de quem não demonstrou interesse em ser vice para manter sua própria candidatura.
Zema alerta ainda que falta um governo que realmente se preocupe com os brasileiros, trabalhadores e geradores de empregos. "Quem está no poder precisa pensar nos brasileiros, e não no próprio umbigo. Precisamos, e muito, de uma mudança na economia, pois, caso contrário, teremos tempos muito sombrios em 2027."
Confira sua entrevista completa a seguir:
Diário do Comércio - Sendo empresário de origem e agora pré-candidato à presidência, como o senhor pretende conduzir temas como o fim da jornada 6x1, o aumento do limite do MEI e a proteção do Simples na reforma tributária?
Romeu Zema - Primeiramente, eu sei que a escala 6x1 é muito desgastante para quem trabalha. Mas sou sempre favorável à livre negociação entre empresa e trabalhador. Se alguém foi contratado para folgar duas vezes por semana, e isso foi pactuado entre as partes, ótimo. Se foi pactuado folgar uma vez por semana e ambas as partes concordaram, tudo bem também.
O que acontece hoje é que temos uma PEC sendo discutida, que considero bastante equivocada. O que o brasileiro quer hoje é flexibilidade, quer ganhar mais. Em nenhum momento o projeto propõe a redução de gastos desnecessários ou a diminuição dos juros, para que donos de comércios, por exemplo, possam manter seus negócios com menos burocracia e garantir uma renda digna no mês. As micro e pequenas empresas serão muito afetadas por essa PEC.
Como um dono de um simples restaurante vai conseguir contratar mais pessoas, sendo que seu empreendimento funciona melhor nos finais de semana? Portanto, essa PEC não apresenta uma solução; é mais uma lista de desejos sem fundamento. O MEI é muito importante e fez muitos brasileiros se tornarem empreendedores, por isso, estamos trabalhando, conversando com o setor privado para que se torne simples empreender no Brasil. É preciso simplificar para quem empreende. Nós estamos estudando soluções para, talvez, ampliar a estrutura do Simples para mais empresas do Brasil.
No seu governo em Minas houve a criação de programas em prol dos pequenos negócios, como o 'Minas Livre para Crescer', e diretrizes de redução do ''Custo Minas' para quem quer empreender. É possível levar esses programas regionais para aplicar na realidade nacional?
Zema - É muito possível, sim, e esse é o caminho correto a seguir. O Brasil ainda tem solução. Eu vejo o país da mesma forma como encontrei Minas em 2019, um cenário devastador, sem perspectiva de melhora no futuro. Como citado na pergunta, nós criamos, em Minas, o maior programa de simplificação do ambiente de negócios do país, que é o Minas Livre para Crescer, que dá liberdade, principalmente, para os municípios fazerem seus próprios marcos regulatórios e facilitarem o empreendedorismo.
Com isso, desde 2019, Minas atraiu mais de R$ 475 bilhões em investimentos, uma média anual de R$ 80 bilhões, valor sete vezes superior à média registrada entre 1998 e 2018. Além disso, mais de 600 municípios aderiram à Lei da Liberdade Econômica que criamos. Então, não tem segredo: temos que facilitar a vida do empreendedor, pois eles são a nossa marcha forte do país.
Sua gestão tinha como mote a austeridade fiscal e o liberalismo econômico, baseados em sua experiência como gestor privado. Mas, com o aumento da dívida de MG em 51%, como convencer o eleitorado nacional de que é possível manter uma gestão eficiente do país?
Zema - Vale salientar que a dívida em Minas não aumentou na minha gestão, o que aumentou foram os juros dessa dívida. O governo do PT propaga essas notícias falsas, falando que eu aumentei a dívida, mas é mentira. Vale lembrar que essa dívida em Minas tem mais de 30 anos, e nenhum governador buscou dar uma solução. Eu, sim, busquei.
Paguei, de janeiro de 2019 até março de 2026, mais de R$ 13,2 bilhões dessa dívida. Portanto, o eleitorado precisa se informar melhor e entender como encontramos o Estado. Os servidores não recebiam salários, não recebiam o 13º, os prefeitos não recebiam os repasses de IPVA, ICMS e Fundeb, era um caos. Isso por culpa do governo do PT.
Na minha gestão, quitamos todas essas pendências e não atrasamos nenhum repasse. Então, muitas pessoas acreditam nessa mentira que o PT propagou, mas que não é verdade, é só pesquisarem melhor e verem o que fizemos no estado.
O senhor defende o voto distrital?
Zema - Eu acredito que o Brasil esteja maduro para discutir um voto distrital misto. Isso faz com que as pessoas fiquem mais próximas de quem elas votaram. Ainda acaba com os puxadores de votos, que fazem com que outros candidatos que as pessoas nunca viram vençam a eleição por causa disso.
O senhor diz que quer levar sua candidatura à presidência até o fim por defender propostas que 'desagradam à classe política tradicional'. Pode detalhar melhor essas propostas?
Zema - Primeiramente, vale lembrar que eu nunca fui político. Sempre fui empresário, no ramo do varejo. Portanto, não faço parte do sistema e vou combatê-lo. Temos que acabar com as ‘farras dos intocáveis’. Hoje, o que acontece no Supremo Tribunal Federal (STF) é, na minha visão, um verdadeiro balcão de negócios. Pelo que estou vendo, apenas eu estou falando sobre isso, mais ninguém. Precisamos estabelecer leis mais rígidas para acabar com essa folga de políticos no Brasil.
Estou na política para fazer a coisa certa, como fiz em Minas. Não estou na política para agradar a A ou B. Portanto, precisamos acabar com esses privilégios dos políticos e, principalmente, ser implacáveis no combate à corrupção.
Se o seu partido achasse mais viável, o senhor levaria adiante uma vice-presidência na chapa de Flávio Bolsonaro?
Zema - Eu e meu partido já decidimos seguir adiante com a minha pré-candidatura e iremos até o final. Tenho minhas ideias e vou segui-las.
Na hipótese de um segundo turno entre Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado, quem o senhor apoiaria?
Zema - Se isso acontecesse, seria um momento de muita felicidade para mim, e eu apoiaria ambos. Já decidimos que todos os pré-candidatos da centro-direita, em um eventual segundo turno, serão apoiados por quem estiver nele. O nosso propósito é um só: acabar com o PT e tirá-lo do poder. Todos estamos caminhando juntos para isso.
O que falta, em sua avaliação, para melhorar o país tanto política quanto economicamente?
Zema - O que falta é a gente ter um governo que realmente se preocupe com os brasileiros, trabalhadores e geradores de empregos. Um governo que não apoie os intocáveis, as corrupções e a vagabundagem. Além disso, se você melhora o país economicamente, melhora a política também. O que falta para isso é que quem está no poder pense nos brasileiros, não no próprio umbigo.
Precisamos, e muito, de uma mudança na economia, pois, caso contrário, teremos tempos muito sombrios em 2027. Então, precisamos cortar gastos desnecessários e acabar com burocracias para podermos atrair cada vez mais empresas para o país. Isso tudo eu fiz em Minas e deu certo, tanto que batemos a marca de um milhão de empregos com carteira assinada em seis anos.
Quem é Romeu Zema
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O ex-governador de Minas Gerais é considerado um dos principais nomes da direita brasileira na atualidade. Concorreu a um cargo público pela primeira vez em 2018, quando foi eleito governador com 71,8% dos votos válidos, no 2º turno. Foi reeleito para exercer o segundo mandato (2023-2026) no primeiro turno com mais de seis milhões de votos (56,1%). Antes de ingressar na carreira política, Romeu Zema já era conhecido por sua experiência no gestor privado: esteve à frente do controle das Lojas Zema por mais de três décadas e foi responsável pelo salto que levou a rede varejista de quatro unidades em Minas Gerais para mais de 430 lojas em seis estados brasileiros. Em 2023, o grupo completou 100 anos. Zema é formado em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas, uma das principais instituições de ensino do país. |
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IMAGEM: Gil Leonardi/Imprensa MG

