Acordo Mercosul-UE: um novo horizonte para o comércio exterior brasileiro
Perspectivas e oportunidades para empresas comerciais importadoras e exportadoras

O recente avanço do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, com sua aprovação em janeiro de 2026, marca um divisor de águas para o comércio exterior brasileiro. Este tratado, fruto de mais de duas décadas de negociações, estabelece a maior zona de livre comércio do mundo, abrangendo um mercado de mais de 720 milhões de consumidores e um PIB combinado superior a US$ 22 trilhões. Para as empresas comerciais importadoras e exportadoras (tradings), este cenário não apenas redefine as regras do jogo, mas também amplifica o papel estratégico dessas organizações na facilitação e otimização dos fluxos comerciais bilaterais.
O CECIEx, ciente da relevância deste momento, apresenta esta análise com o objetivo de orientar seus associados e o mercado em geral sobre as principais oportunidades e desafios que se materializam com a implementação do acordo. Nossa perspectiva foca na capacidade das tradings de atuar como catalisadores, mitigando riscos e maximizando os benefícios para a indústria e o agronegócio brasileiros, tanto na exportação quanto na importação.
Oportunidades de Exportação: Abertura de Mercados e Agregação de Valor
O acordo Mercosul-UE promete uma significativa redução e eliminação de tarifas para uma vasta gama de produtos brasileiros, impulsionando a competitividade e o acesso a um mercado consumidor sofisticado e de alto poder aquisitivo. A expectativa é de um aumento substancial nas exportações, com estimativas da ApexBrasil apontando para ganhos adicionais de R$ 7 bilhões e do Ipea projetando um crescimento de 2% na produção agrícola, equivalente a US$ 11 bilhões anuais [1].
1. Agronegócio: O Carro-Chefe da Pauta Exportadora
O setor agropecuário brasileiro é, sem dúvida, o maior beneficiário do acordo. A União Europeia já é um destino consolidado para nossos produtos agrícolas, e o tratado fortalecerá essa relação. As tradings terão um papel crucial na gestão das cotas e na garantia da conformidade com os rigorosos padrões europeus.
1.1 Carnes (Bovina, Frango e Suína)
As exportações de carne bovina para a UE cresceram 83,2% nos 11 primeiros meses de 2025, atingindo US$ 820,15 milhões [2]. Com a redução de tarifas, a carne brasileira, especialmente cortes premium, ganhará ainda mais competitividade. As cotas de importação (99 mil toneladas/ano para o Mercosul com tarifa inicial de 7,5%) e as salvaguardas exigirão das tradings uma gestão eficiente e estratégica para otimizar o uso desses volumes [3].
1.2 Café
A UE é o principal destino do café brasileiro, com exportações de US$ 6,43 bilhões entre janeiro e novembro de 2025 [2]. A eliminação de tarifas para o café verde e a maior competitividade para o café solúvel (que hoje compete com o Vietnã, já com tarifa zero) abrem caminho para produtos de maior valor agregado. As tradings podem auxiliar na certificação de sustentabilidade e rastreabilidade, requisitos cada vez mais valorizados pelos consumidores europeus.
1.3 Complexo Soja (Grão, Farelo e Óleo)
Com exportações de soja e derivados somando aproximadamente US$ 7 bilhões em 2024, a UE é o terceiro maior destino [1]. A redução de tarifas estimulará a demanda por farelo para alimentação animal e óleo para diversas aplicações. O desafio da conformidade ambiental (EUDR - Lei Antidesmatamento) e da rastreabilidade será um diferencial para as tradings que conseguirem garantir a origem sustentável do produto.
1.4 Frutas Frescas e Suco de Laranja
A UE já é o maior destino das frutas brasileiras, e o acordo prevê a eliminação imediata da tarifa de 14% para uvas, além de reduções para manga e mamão [1]. Para o suco de laranja, do qual o Brasil é o maior exportador global, a redução de tarifas pode ajudar a recuperar volumes e impulsionar a exportação de produtos concentrados [4]. A gestão da logística refrigerada e a conformidade fitossanitária são áreas onde as tradings podem agregar valor significativo.
1.5 Celulose e Etanol
A celulose, com US$ 1,98 bilhão exportados para a UE em 2024, terá sua competitividade ampliada pela redução de tarifas [2]. O etanol, alinhado aos objetivos climáticos europeus, também se beneficiará da redução tarifária, embora com cotas e salvaguardas [3]. As tradings podem explorar a crescente demanda europeia por produtos sustentáveis e biocombustíveis, garantindo as certificações necessárias.
2. Indústria: Modernização e Acesso a Novos Nichos
Além do agronegócio, setores industriais também verão oportunidades significativas, especialmente aqueles que podem se integrar às cadeias de valor europeias.
2.1 Calçados
Com tarifas atuais entre 3,5% e 17%, a eliminação gradual em até 4 anos para calçados brasileiros representa uma grande oportunidade [1]. As tradings podem auxiliar na diferenciação de produtos, no branding e na busca por parcerias com varejistas europeus, focando em calçados de couro de qualidade premium.
2.2 Minerais e Metais
A demanda europeia por minerais como cobre e minério de ferro, essenciais para a transição energética, crescerá com a redução de tarifas [1]. As tradings podem atuar na conformidade ambiental e na conexão com processadores europeus.
2.3 Produtos Químicos e Derivados
A indústria química brasileira, já integrada globalmente, terá tarifas reduzidas para seus produtos, facilitando a entrada como insumos em cadeias de fabricação europeias. A conformidade com padrões de segurança química e a inovação em produtos serão cruciais [5].
Oportunidades de Importação: Redução de Custos e Acesso à Tecnologia
O acordo também trará benefícios substanciais para as importações brasileiras, com a redução e eliminação de tarifas sobre produtos europeus. Isso resultará em menor custo para o consumidor final e para a indústria, além de facilitar o acesso a tecnologias e inovações.
1. Produtos Farmacêuticos e Químicos
A União Europeia é uma das principais fontes de fármacos para o Brasil, com mais de US$ 7 bilhões importados em 2025 [5]. A redução tarifária em medicamentos, vacinas e insumos químicos barateará esses produtos, beneficiando o sistema de saúde e a indústria nacional. As tradings podem otimizar o sourcing, garantindo o acesso a produtos de alta qualidade e tecnologia.
2. Máquinas e Equipamentos
A tarifa zero imediata para motores, geradores e equipamentos elétricos europeus [5] representa uma oportunidade para a modernização do parque industrial brasileiro. A redução de custos de capital (CAPEX) permitirá que as empresas brasileiras invistam em tecnologias de ponta, como as da Indústria 4.0, aumentando sua produtividade e competitividade. As tradings serão fundamentais na identificação e importação desses equipamentos.
3. Automóveis e Autopeças
Com US$ 5,07 bilhões em importações de automóveis e autopeças em 2025 [5], a redução tarifária progressiva e o acesso a tecnologias europeias de propulsão limpa (veículos elétricos e híbridos) impulsionarão a integração do Brasil em cadeias globais de valor e a oferta de modelos premium no mercado interno. As tradings podem facilitar a entrada desses produtos, gerindo a complexidade das cotas e cronogramas de desgravação.
4. Alimentos e Bebidas Gourmet
Produtos como vinhos, espumantes, azeites, chocolates e queijos finos europeus terão suas tarifas reduzidas gradualmente, tornando-os mais acessíveis ao consumidor brasileiro [6]. Isso estimulará o mercado interno de consumo e o varejo especializado. As tradings podem explorar a crescente demanda por produtos de alto valor agregado, diversificando o portfólio de importação.
O Papel Estratégico das Empresas Comerciais (Tradings)
Neste novo cenário, o papel das empresas comerciais importadoras e exportadoras torna-se ainda mais vital. Elas atuarão como elos estratégicos, conectando produtores brasileiros a mercados europeus e vice-versa, e oferecendo expertise em áreas críticas:
- Gestão de Conformidade: As tradings serão essenciais para garantir que os produtos brasileiros atendam aos rigorosos padrões europeus, desde a conformidade ambiental (EUDR) e fitossanitária até as normas técnicas e de rastreabilidade.
- Otimização de Fluxos: A complexidade das cotas, salvaguardas e cronogramas de desgravação tarifária exigirá uma gestão especializada, onde as tradings podem otimizar os fluxos comerciais para maximizar os benefícios tarifários.
- Inteligência de Mercado: Identificar nichos de mercado, tendências de consumo e fornecedores competitivos na Europa será uma função primordial das tradings, permitindo que as empresas brasileiras se posicionem estrategicamente.
- Logística e Financiamento: A expertise em logística internacional, desembaraço aduaneiro e soluções de financiamento ao comércio exterior será crucial para garantir a eficiência e a competitividade das operações.
- Agregação de Valor: As tradings podem auxiliar na agregação de valor aos produtos brasileiros, desde a embalagem e o branding até a certificação e a adaptação às exigências específicas do mercado europeu.
Conclusão
O acordo Mercosul-União Europeia representa uma oportunidade histórica para o Brasil consolidar sua posição como um player global no comércio exterior. Para o CECIEx e suas empresas associadas, este é um momento de reafirmar o papel central das tradings como facilitadoras, estrategistas e impulsionadoras do desenvolvimento econômico. Ao abraçar os desafios da conformidade e da competitividade, e ao explorar as vastas oportunidades de exportação e importação, as empresas comerciais brasileiras estarão na vanguarda da construção de um futuro comercial mais próspero e integrado.
**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio**
Referências
[1] Acordo UE-Mercosul: os 10 produtos que o Brasil mais vende para a Europa - Exame
[2] Carne, soja e café: os setores beneficiados com o acordo Mercosul-UE - CNN Brasil
[3] Acordo UE-Mercosul: vitórias, cotas e riscos para o agro - Gazeta do Povo
[4] Clima Frio e Preço Alto Freiam Exportação de Suco de Laranja do Brasil - Forbes Agro
[5] Impactos do Acordo Mercosul-União Europeia na Indústria Brasileira — Insights by Logcomex
[6] Como o acordo UE-Mercosul deve afetar o bolso dos brasileiros? - G1
IMAGEM: Agência Brasil
