Bonini, da Scania: geopolítica atual ajudou o Brasil a ser um parceiro comercial desejável
O diretor institucional da Scania explicou, durante o Global Trade Summit 2026, por que o país passou a ser olhado por nações que adotam o friendshoring

"O comércio global não caminha para uma desglobalização, mas para uma reconfiguração profunda em que a segurança supera o custo." A análise de Gustavo Bonini, diretor institucional da Scania, indica que o mercado vive uma mudança de paradigma, sendo que a pergunta central deixou de ser "onde é mais barato?" para tornar-se "onde é mais seguro?".
Nesse cenário de rivalidade entre potências e fragmentação de alianças, Bonini avalia que o Brasil tem a oportunidade de atuar como um pilar de diálogo e estabilidade na América do Sul. Contudo, ele também aponta que o país e o Mercosul encontram-se em uma encruzilhada decisiva, desafiados a equilibrar a busca por liderança regional com a urgência de não perder competitividade em um mundo regido pela geopolítica e pela segurança energética.
Na última quarta-feira (28), Bonini se apresentou no Global Trade Summit 2026, promovido pela Associação Comercial e Industrial de Campinas (ACIC), e falou sobre os efeitos do cenário geopolítico mundial no cotidiano das empresas brasileiras. Nas palavras do executivo, o Mercosul ganhou relevância nas últimas três décadas, impulsionado pelo peso do Brasil e pela ascensão do Paraguai. No entanto, o bloco ainda sofre com uma atuação "tímida" na celebração de acordos internacionais.
"Temos que resolver essas questões da falta de acordos. A vantagem para o Brasil e vizinhos sul-americanos tem que ser construída para além das reduções tarifárias, e o país precisa fortalecer suas relações na América do Sul", afirma o executivo.
Para ele, o Brasil atravessa um momento de otimismo cauteloso, impulsionado pela necessidade de fortalecer laços dentro da América do Sul e aproveitar as brechas abertas pelas tensões globais. Segundo Bonini, o pragmatismo geopolítico tem sido o grande motor para a viabilização de novos tratados.
Ele traçou um paralelo com a resistência histórica da Europa em fechar acordos com o bloco sul-americano, destacando que a mudança de postura não foi apenas por vontade política, mas por necessidade. "Sou otimista pelos novos acordos que poderemos fazer a partir deste momento, pelas mesmas razões que fizeram a Europa mudar de ideia, empurrada pelas questões geopolíticas", afirmou.
Segundo o diretor da Scania, a ausência de tratados robustos prejudica diretamente o agronegócio, setor no qual o continente já é uma potência, mas que carece de melhores condições de acesso a mercados globais. Bonini destacou que a logística de eficiência máxima e estoques mínimos deu lugar à continuidade dos negócios. Em um dos exemplos citados, ele disse que a pandemia e a crise dos semicondutores ensinaram que a cadeia mais barata pode ser, também, a mais frágil. Por isso, agora, o comércio é guiado pela redundância e proximidade.
Um dos pontos destacados durante a análise de Bonini é a posição estratégica do Brasil no conceito de friendshoring - a tendência global de países redirecionarem seu comércio para nações consideradas aliadas políticas e seguras, em que acordos deixam de ser apenas sobre tarifas e passam a definir padrões de sustentabilidade, regras de origem e alinhamento estratégico. E, mesmo reconhecendo gargalos estruturais, ele enfatizou que a neutralidade e a diplomacia brasileira são ativos valiosos. Nesse contexto, ele disse que o acordo Mercosul-UE surge não apenas como uma meta comercial, mas como uma resposta necessária a um mundo fragmentado.
"As questões geopolíticas no mundo ajudaram o Brasil, que tem a situação privilegiada de ser um país friendshoring. Todo mundo quer fazer negócio com a gente. Não somos os mais eficientes, temos algumas deficiências, mas não temos problemas em fazer negócios."
Novo patamar de sustentabilidade
Outro ponto de destaque feito pelo executivo é a mudança de patamar exigida pelo padrão de sustentabilidade por meio da sigla ESG, que significa Ambiental, Social e Governança (Environmental, Social and Governance), surgida em 2004, por iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU) e do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (Bird). Nesse sentido, Bonini explicou que os grandes CEOs foram incumbidos de integrarem fatores ambientais, sociais e de governança ao mercado, transformando sustentabilidade em métricas financeiras e de investimento.
No entanto, ele defende a necessidade do mercado evoluir do tradicional ESG para o ESG 2.0 - um novo estágio que, segundo ele, representa uma reforma estrutural fundamental para evitar a perda de relevância do ESG no universo corporativo contemporâneo.
Para além de um ESG que prega por reputação, metas de longo prazo e pressão de investidores, ele elucidou que o ESG 2.0 impõe segurança energética, descarbonização com competitividade e dados para decisão. Ou seja, uma prática que vai além da adoção de medidas ambientais, sociais e de governança, e se integra de forma estratégica às operações com foco em economia, segurança e geopolítica.
"Significa abandonar o idealismo narrativo por uma execução pragmática. As empresas passam de agentes econômicos a protagonistas em temas como segurança energética, ética na cadeia de suprimentos, proteção de dados transnacionais, responsabilidade social ampliada e inovação tecnológica."
E ressaltou que o Brasil inicia essa corrida em vantagem: enquanto a Europa vive o dilema entre terra para alimentos ou para energia, o Brasil é o país do Food and Fuel (alimento e combustível). Também apontou que, diante da demanda por energias renováveis, corporações do setor elétrico precisam investir em tecnologias limpas e garantir transparência sobre impactos ambientais.
"Com biocombustíveis maduros e uma matriz limpa, o Brasil tem o que o mundo busca: segurança industrial com baixa emissão."
Para fortalecer esse potencial, Bonini disse que o Brasil enfrenta o desafio de redefinir sua liderança na América do Sul. A influência brasileira na região tem sido testada por cenários complexos em países vizinhos como Argentina, Uruguai e Venezuela, além da crescente presença da China. A eficácia dessa liderança, segundo o executivo, dependerá da capacidade diplomática de equilibrar interesses nacionais com a cooperação regional. Para as empresas de comércio exterior, ele apontou que a margem de lucro agora é determinada pela leitura correta da geopolítica, da logística e dos dados, e não apenas pelo preço do produto.
"Sai de cena a escala global a qualquer custo, entra a resiliência e a leitura geopolítica. A IA redesenha o comércio ao acelerar a demanda elétrica, tornando a energia a variável central da segurança industrial."
LEIA MAIS
Lula sanciona acordo entre Mercosul e União Europeia
IMAGEM: Anfavea/divulgação

