Com 30% do faturamento vindo do exterior, Piccadilly mira o Oriente Médio
Sob a liderança de Cristine Grings, terceira geração da família, a calçadista brasileira une tradição de 70 anos e inovação digital para exportar quase 3 milhões de pares em 2025

Em um cenário global marcado por flutuações econômicas e desafios logísticos, a Piccadilly pode ser considerada um case de sucesso na internacionalização da indústria calçadista brasileira. Com uma trajetória de sete décadas, a marca não apenas levou o "made in Brazil" para mais de cem países, como transformou o mercado externo em um pilar vital de sustentabilidade do negócio: hoje, as exportações representam 30% do faturamento da companhia.
Em entrevista ao Diário do Comércio, durante o 6º Encontro Liberdade Para Empreender, do Conselho Nacional da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC) da Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB), Cristine Grings, presidente da Piccadilly, revela que a estratégia para atenuar os riscos globais está na diversificação de mercados e na construção consistente de valor de marca.
"Temos um olhar orientado para a diversificação. Essa presença global permite avançar com consistência em diferentes regiões, ampliando oportunidades e fortalecendo a competitividade", afirma a executiva.
Da América Latina para a Ásia
De acordo com Cristine, a atuação internacional da Piccadilly é estruturada em duas frentes: a manutenção de praças onde a marca já possui forte tração, como Colômbia, Peru, Equador, México e Guatemala, e a ofensiva em regiões estratégicas, como o Oriente Médio. Além destes, países como Argentina, Israel, Coreia do Sul e Chile compõem o portfólio de mercados ativos da marca e que sustentam os números atuais de internacionalização da companhia.
Hoje, a estrutura física da Piccadilly no exterior é de 33 lojas licenciadas e 20 exclusivas. Em 2024, a empresa consolidou a exportação de 2,5 milhões de pares. Para 2025, a meta é ainda mais ambiciosa: atingir 2,8 milhões de pares enviados ao exterior.
Ao apontar uma das curiosidades de sua operação global, a executiva destaca a gestão de produtos e explica que a marca não desenvolve linhas exclusivas para exportação. Em vez disso, utiliza a inteligência de mercado para curar o mix ideal dentro de seu vasto portfólio.
Para a coleção de Outono/Inverno 2026, por exemplo, que conta com mais de 300 modelos, a seleção é cirúrgica, diz Cristine. E além das cores e modelos, ela considera que o atributo histórico da marca que a tornou uma tendência mundial é o de olhar para mulheres que priorizam calçados que unam funcionalidade e estilo para rotinas intensas.
"No Oriente Médio, os modelos metalizados têm maior demanda. Já o elo que conecta a consumidora de Dubai à de São Paulo é o conforto. Conseguimos ajustar o mix conforme as preferências locais, mantendo uma identidade global consistente".
Ainda sobre a internacionalização, Cristine aponta que essa divisão dos negócios caminha lado a lado com a modernização interna. A empresa avança na transformação digital, tanto no chão de fábrica, focando em eficiência operacional e precisão, quanto na ponta da venda.
Nesse sentido, a estratégia de omnicanalidade transformou o papel das franquias e parceiros multimarcas, diz. Por essa razão, a loja física deixou de ser um ponto isolado para tornar-se uma espécie de hub logístico integrado ao e-commerce, em que as entregas são agilizadas e contribuem para ampliar a capilaridade da marca.
Mudança geracional
Citando outro momento importante da companhia, Cristine diz estar vivenciando um período singular em sua governança. Pertencente à terceira geração da família fundadora, ela assumiu a presidência ao lado de duas primas, em 2015, em um movimento de liderança feminina que, segundo a executiva, desafiou o status quo de um setor tradicionalmente masculino.
O maior desafio, na sua opinião, não esteve apenas na gestão, mas em conduzir uma transformação cultural sem perder a essência. Inovar em uma organização de quase 70 anos exigiu coragem para rever modelos e implementar uma cultura de disrupção, mantendo o DNA da marca vivo.
A empresa também aderiu ao movimento "Elas Lideram 2030", da ONU, com meta de 50% de mulheres na alta liderança até o fim da década, e outros programas como o "Encoraja Elas", que capacita operadoras de fábrica para cargos de gestão, que já renderam prêmios nacionais, como o Top Ser Humano ABRH-RS, e promoções efetivas. Esse protagonismo feminino, segundo Cristine, se reflete nos números internos e nas metas de ESG: 60% do quadro de colaboradores é feminino; e 50% da diretoria é composta por mulheres.
Olho no futuro
Para rejuvenescer a marca, atrair novos públicos, aumentar o número de lojas (hoje, são 100 no Brasil) e alcançar a meta de chegar a R$ 1 bilhão de faturamento até 2028, a empresa aposta fortemente em colaborações. Após o sucesso com licenças como Barbie e Ursinhos Carinhosos, a grande aposta para 2026 é a parceria com a atriz Carolina Dieckmann, que além de embaixadora, assinará uma collab exclusiva.
Mesmo em um ano desafiador, a empresa registrou um crescimento de 8% no volume de pares vendidos em 2024, com crescimento de 20% no canal de franquias, e faturou R$ 587 milhões. Neste ano, a projeção é avançar 16%, alcançando R$ 680 milhões. Para 2026, o plano da marca, que está em 21 mil pontos de vendas, é diminuir a dependência de lojas multimarcas, expandir o número de franquias, lojas próprias no exterior e ganhar corpo nos canais digitais.
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