Jornada de 40 horas pode elevar custo do comércio paulistano em R$ 2,3 bilhões por ano

Sindilojas-SP calcula que setor precisaria contratar 52 mil funcionários extras caso a jornada semanal caia sem redução no horário das lojas

Fátima Fernandes
23/Abr/2026
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Jornada de 40 horas pode elevar custo do comércio paulistano em R$ 2,3 bilhões por ano

O comércio da cidade de São Paulo emprega cerca de 595 mil trabalhadores com carteira assinada. Desse total, 87,5% cumprem jornada semanal de 44 horas.

Caso a carga horária seja reduzida para 40 horas, mantendo-se o atual horário de funcionamento das lojas, o setor precisaria contratar cerca de 52 mil novos empregados.

Com salário médio de R$ 3.700, isso representaria um custo adicional de R$ 192 milhões por mês, ou R$ 2,3 bilhões por ano.

Os cálculos são do Sindilojas-SP, com base nos dados mais recentes da RAIS (Relação Anual de Informações Sociais), referentes a 2024, gerenciada pelo Ministério do Trabalho e Emprego.

“O varejo será um dos setores mais afetados, caso avance a redução da jornada de 6x1 para 5x2”, afirma Jaime Vasconcellos, economista da entidade.

Duas questões estão tirando o sono dos lojistas. Se há disponibilidade dessa mão de obra no mercado e se as empresas terão capacidade financeira para absorver os custos trabalhistas.

No ano passado, o varejo da capital paulista criou 9 mil empregos, o saldo entre contratações e demissões. E, de acordo com Jaime, não foi fácil achar todo esse pessoal.

Para ele, seriam necessários cerca de seis anos, no ritmo atual de geração de vagas, para preencher esse contingente.

A situação piora para o lojista, de acordo com o economista, quando, além de reduzir a jornada, a legislação proíbe a escala 6x1, reduzindo em 20% a disponibilidade do trabalhador.

“Essa é uma matemática inviável, problemática, com tantos efeitos econômicos para ocorrer de uma forma acelerada demais”, afirma o economista.

O varejo, de acordo com Vasconcellos, não vive um bom momento. Ao contrário. O volume de vendas do varejo paulista caiu 1,3% em fevereiro deste ano em relação a igual período de 2025.

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Nos últimos 12 meses terminados em fevereiro houve um crescimento de 0,1%, de acordo com a PMC (Pesquisa Mensal de Comércio), do IBGE.

“Estamos falando em aumento de custo em um cenário de estagnação e queda de vendas. Não é hora de fazer uma mudança tão grande num país com tantos problemas estruturais.”

A redução da jornada de trabalho, de acordo com o Sindilojas-SP, é uma discussão legítima, mas não deveria ser tratada com viés eleitoral.

Com quatro lojas, Walter Gomes, sócio-proprietário da Viva a Noiva, diz que, se for reduzida a jornada para 5x2, as suas lojas teriam que contratar cerca de cinco funcionários. Hoje são 50.

“Isso não deve acontecer. Não tem mão de obra no mercado e o movimento nas lojas não justifica mais contratações. Ao contrário, talvez seja o motivo de downsizing (reduzir a estrutura)”, afirma.

Gomes trabalha com terceirizados, costureiras, bordadeiras, já que customizar vestidos é o forte de suas lojas. “Meu ramo é delicado. A disputa é voraz”, afirma.

A redução da jornada de trabalho deve exigir um grande remanejamento de escalas, especialmente em lojas de shoppings, que geralmente funcionam das 10h às 22h.

“Os lojistas de shoppings terão de trabalhar com três turnos em vez de dois. Estão tentando mexer na jornada de trabalho da iniciativa privada, tirar dos sindicatos as suas representatividades, o que é inconstitucional”, afirma Aldo Macri, presidente do Sindilojas-SP.

A redução da jornada de trabalho e fim da escala 6x1 está concentrada em duas PECs e um projeto de lei do governo federal.

A PEC 1221/19, do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), prevê incluir na Constituição dispositivo que limita a carga de trabalho diária a 8 horas e a semanal a 36 horas.

A PEC 8/25, da deputada Erika Hilton, também estabelece teto de 8 horas diárias e 36 semanais, mas distribuindo essa jornada em escala de quatro dias de trabalho por três de descanso.

O Projeto de Lei do governo Lula, enviado em abril deste ano, propõe a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais, sem corte de salários, e tem tramitação mais simples que as PECs.

Marcos Hirai, consultor de varejo, diz que a redução da jornada de trabalho é um caminho sem volta e que vai aumentar os custos para os lojistas, mas é preciso ‘olhar o copo mais cheio’.

“Hoje existe um apagão de mão de obra e está difícil achar quem queira trabalhar seis dias e folgar um. O problema do turnover pode diminuir”, afirma.

Para Hirai, a adaptação exigirá custos e mudanças operacionais, mas a resistência inicial tende a diminuir com o tempo.

“O trabalhador valoriza mais qualidade de vida, e as empresas que entenderem isso podem reter melhor seus funcionários e reduzir a rotatividade”, afirma.

Como se trata de uma mudança que afeta milhões de trabalhadores e milhares de empresas, o debate tende a avançar entre pressões por melhores condições de trabalho e preocupações com custos e competitividade, de acordo com consultores e lojistas.

Para o varejo, o desafio será encontrar um ponto de equilíbrio entre adaptação operacional, sustentabilidade financeira e as novas expectativas do mercado de trabalho.

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IMAGEM: Thiago Bernardes/DC

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