Lula deve criar comitê e ouvir empresários antes de reagir ao tarifaço de Trump

O presidente da República se reuniu com ministros no último domingo para definir a estratégia; Alckmin afirmou que a regulamentação da Lei da Reciprocidade será publicada na terça-feira, 15

Redação DC
14/Jul/2025
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Lula deve criar comitê e ouvir empresários antes de reagir ao tarifaço de Trump

*com informações do Estadão Conteúdo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu com ministros no domingo (13) no Palácio da Alvorada para discutir a reação do governo ao aviso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que irá taxar os produtos brasileiros em 50% a partir de 1º de agosto. Uma das propostas é a criação de um comitê interministerial para conversar diretamente com os setores mais afetados pela sobretaxa.

Lula disse também que pretende conversar pessoalmente com empresários para traçar uma estratégia conjunta de negociação com o governo norte-americano.

Também no domingo, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, afirmou em São Paulo que a regulamentação da chamada Lei da Reciprocidade deve ser publicada em decreto até terça-feira, 15. A legislação, aprovada pelo Congresso Nacional, autoriza o Brasil a adotar medidas tarifárias e não tarifárias contra países que impuserem barreiras às exportações brasileiras.

Além de Alckmin, estiveram no Palácio da Alvorada os ministros Fernando Haddad (Fazenda), Gleisi Hoffmann (Secretaria de Relações Institucionais), Carlos Fávaro (Agricultura e Pecuária) e Sidônio Palmeira (Secretaria de Comunicação Social), além do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA).

Dependência do mercado dos EUA 

Dois grupos que cobram uma ação rápida do governo brasileiro são os produtores nacionais de pescado e a indústria do cacau, setores altamente dependentes do mercado norte-americano para suas vendas externas. No caso dos piscicultores, quase a totalidade das exportações tem os Estados Unidos como destino.  

A Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR) disse, em nota, que a tarifa de 50% a produtos brasileiros atinge diretamente a cadeia da produção de peixes de cultivo, em especial a tilapicultura. "O mercado norte-americano é o principal destino das remessas internacionais da piscicultura brasileira, respondendo, em 2024, por 89% do volume exportado, o que resultou em US$ 52,2 milhões em negócios", destacou a entidade em nota.

Entre as espécies embarcadas, a tilápia lidera, seguida pelo tambaqui. A piscicultura no Brasil está presente em 237.669 estabelecimentos rurais brasileiros, nos 27 Estados da federação e em mais de 60% das cidades, gerando mais de 1 milhão de empregos diretos e indiretos, afirma.

"É fundamental que o governo federal atue com celeridade, acione os canais diplomáticos e busque o entendimento com as autoridades dos Estados Unidos. O restabelecimento do diálogo com um dos principais parceiros comerciais do país deve ser prioridade estratégica", defendeu no comunicado.

Cacau - A Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC) lançou um alerta sobre o recente anúncio dos Estados Unidos de impor uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros de cacau. Segundo a AIPC, em nota, essa decisão pode prejudicar significativamente a competitividade das exportações brasileiras.

Entre 2020 e 2024, as exportações de derivados de cacau para os EUA representaram, em média, 18% do total brasileiro, atingindo US$ 72,7 milhões em 2024. Este fluxo comercial demonstrou um crescimento ainda mais expressivo no primeiro semestre de 2025, com exportações já totalizando US$ 64,8 milhões.

Segundo a entidade, a nova tarifa chega em "um momento delicado" para o setor, que ainda se recupera de uma série de quebras de safras e enfrenta altos preços internacionais e restrições na oferta interna de amêndoas. "Muitas regiões produtoras dependem da exportação de derivados como uma válvula de escape econômica, essencial para a manutenção de empregos e operações", prossegue.

Os riscos não são apenas comerciais, alerta a AIPC. A tarifa imposta pelos EUA pode desestabilizar o regime de Drawback, que isenta tributos sobre insumos importados destinados à exportação. O descumprimento de contratos devido à inviabilidade econômica poderá resultar em multas e exigência de tributos, além de provocar insegurança jurídica para os exportadores.

Conforme a presidente executiva da AIPC, Anna Paula Losi, "a imposição dessa tarifa representa um risco não apenas econômico, mas também jurídico e logístico. É fundamental preservar os canais de exportação que garantem o funcionamento da indústria", alerta, na nota.

Neste cenário, a AIPC defende uma resposta coordenada entre os governos brasileiro e norte-americano, com medidas diplomáticas e comerciais para mitigar os impactos e garantir a estabilidade das exportações. A associação reitera seu compromisso com o desenvolvimento sustentável do setor, trabalhando junto a diversos atores para proteger a competitividade da cadeia produtiva do cacau no Brasil.

Países afetados pelo tarifaço

Com a rodada tarifária de sábado, 12, que mirou México e União Europeia (UE), 24 países e o bloco europeu já receberam as cartas em que o presidente Donald Trump informa as alíquotas impostas a cada economia estrangeira.

Os documentos começaram a ser divulgados na última segunda-feira, 7. A previsão é de que as cobranças comecem em 1º de agosto, mas Trump deixou aberta a possibilidade de negociações. O republicano também ameaça elevar as tarifas se os governos adotarem retaliação.

Além das cartas, há ainda países que fecharam acordo comercial com os EUA nas últimas semanas. É o caso do Reino Unido, que enfrentará uma sobretaxa de 10%, mas terá benefícios em alguns setores. O Vietnã terá tarifa de 20% sobre quase todos os produtos, bem abaixo da alíquota de 46% prevista em abril. Já a China negociou uma redução tarifária de 145% para 55%.

Veja a lista atualizada até o momento: - Japão - Coreia do Sul - Casaquistão - Mianmar - Malásia - Laos - África do Sul - Tailândia - Sérvia - Indonésia - Bósnia e Herzegovina - Bangladesh - Tunísia - Camboja - Argélia - Líbia - Iraque - Moldávia - Brunei - Filipinas - Sri Lanka - Brasil - Canadá - México - União Europeia.

 

IMAGEM: Ricardo Stuckert/PR

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