Mercosul-UE: acordo entra hoje em vigor provisoriamente. Conheça desafios e oportunidades para o Brasil

Se bem conduzido, o tratado deixará de ser um pacto de troca de commodities para se tornar o alicerce de uma inserção soberana, em que a tecnologia e o associativismo transformam o Brasil em um parceiro estratégico indispensável para a Europa

Fernando Moreira
01/Mai/2026
Gerente de Conteúdo da ACSP, mestre e doutorando USP/Harvard, especializado em RI e Finanças (UnB e UBS-B3)
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 Mercosul-UE: acordo entra hoje em vigor provisoriamente. Conheça desafios e oportunidades para o Brasil

A ratificação do Acordo Mercosul–União Europeia transcende a mera engenharia tarifária; representa a ancoragem definitiva do Brasil em um dos eixos mais sofisticados da governança global. Ao integrar um mercado que movimenta um PIB combinado de US$ 22 trilhões, o país não busca apenas escoar excedentes, mas tenta reverter um processo de desindustrialização precoce que tem reduzido nossa participação nas trocas mundiais de alto valor agregado.

A desoneração de 92% das exportações do bloco sul-americano é um convite à modernização, especialmente ao facilitar o acesso imediato a 543 categorias de bens de capital. Para uma economia que convive com uma produtividade estagnada, a importação de máquinas e tecnologias  europeias com alíquota zero funciona como um choque de eficiência necessário para que a indústria nacional deixe de ser um ecossistema isolado e passe a integrar cadeias globais de valor.

O Acordo pressupõe densa malha de exigências ambientais e de rastreabilidade. As métricas de conformidade com o Pacto Ecológico Europeu (Green Deal) impõem ao Brasil o desafio de digitalizar seu agronegócio e sua infraestrutura industrial. Não basta mais produzir com eficiência; é imperativo certificar a integridade de cada elo da cadeia de suprimentos sob a ótica da sustentabilidade.

Esse cenário exige que o setor produtivo brasileiro abandone posturas reativas e adote uma inteligência comercial proativa. A sustentabilidade, portanto, deixa de ser um apêndice do relatório anual para se tornar o próprio passaporte de entrada em um mercado de 720 milhões de consumidores exigentes.

Dentro desse contexto de transformação, a visão da liderança da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) torna-se um componente central da estratégia nacional. Sob a ótica de Alfredo Cotait Neto, o sucesso dessa integração não reside apenas nas grandes corporações, mas na força do associativismo como ponte para a internacionalização. O presidente da entidade defende que a estrutura municipalista das associações é o diferencial para capilarizar as oportunidades do acordo, permitindo que micro e pequenas empresas — muitas vezes alheias às complexidades do comércio exterior — encontrem amparo técnico e institucional para competir em solo europeu.

Para Cotait Neto, o associativismo atua garantindo que o pequeno produtor não seja excluído pelo peso da burocracia internacional, mas ele ainda vê com receio o rigorismo europeu aos produtos brasileiros como possíveis barreiras não tarifárias, desequilibrando a balança de trocas.

Em última análise, o sucesso dessa união depende de um enfrentamento direto das vulnerabilidades estruturais brasileiras. A competição com o bloco europeu exige que o "Custo Brasil" deixe de ser um tópico de queixas para se tornar o foco de reformas sistêmicas em logística, tributação e segurança jurídica. O acordo funciona como um catalisador: ao aceitar as regras de jogo de um mercado global, o país se obriga a elevar sua produtividade média e a alinhar sua legislação aos padrões da OCDE.

Se bem conduzido, o tratado deixará de ser um pacto de troca de commodities para se tornar o alicerce de uma inserção soberana, em que a tecnologia e o associativismo transformam o Brasil em um parceiro estratégico indispensável para a Europa, potencializando um fluxo de Investimento Estrangeiro Direto que já representa 41% do capital internacional no país.


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