Monteiro: "Temos 3 pilares: a livre iniciativa, a propriedade privada e a política sem partido"
Em três décadas como vice-presidente, Carlos Monteiro aborda o forte legado político da ACSP e a defesa da livre iniciativa em São Paulo

Carlos Monteiro é o vice-presidente mais antigo da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), há três décadas no cargo. Ao acompanhar a marcha dos acontecimentos, ele viu empresas nascerem, cidades mudarem e a economia brasileira oscilar. “Todo dia tem um desafio”, disse. “Na vida, tem três segredos: persistência, paciência e porção de amigos.”
Para ele, os obstáculos de empreender em um país onde há burocracia e imprevisibilidade do mercado são um teste constante até para os empreendedores mais resilientes. Para Monteiro, que também preside a Fundação Cultural do Exército Brasileiro, o desafio hoje é transformar a sede do empreendedor brasileiro em oportunidades para negócios e cidadãos.
Nesta entrevista, o vice-presidente compartilha experiências que misturam estratégia empresarial, história da cidade e lições de vida — uma leitura obrigatória para quem busca entender a dinâmica econômica de São Paulo e o papel das associações comerciais na formação de lideranças.
Ao longo de seus 75 anos, Carlos Monteiro construiu uma carreira que atravessa o Brasil urbano e o campo, articulando soluções práticas para empresas, projetos de infraestrutura e a gestão de sua fazenda em São Carlos. Ele lembra com orgulho a Multihab, sua empresa de engenharia, que completa 55 anos prestando serviços em reformas, construções de prédios, aeroportos e projetos para a aeronáutica: “Tenho mais vocação para a prestação de serviço do que para a indústria. E é isso que me move todos os dias”, afirma.
Monteiro também destaca como a experiência no campo moldou sua visão sobre planejamento, paciência e execução: lidar com a imprevisibilidade de uma safra ou com problemas cotidianos da fazenda exige resiliência e adaptação — competências que, segundo ele, são fundamentais para qualquer empreendedor. Para ele, o aprendizado é contínuo: “Todo dia tem um desafio, e saber gerenciá-los é o que faz a diferença para o negócio e para a cidade”, completa, reforçando a conexão entre experiência pessoal, atuação econômica e contribuição para o desenvolvimento local.
A entrada de Monteiro na Associação Comercial de São Paulo também reflete essa trajetória de dedicação e visão estratégica. Ele recorda que começou ainda jovem, como estagiário em uma construtora, acompanhando de perto eleições internas e aprendendo com líderes como Paulo Maluf: “A minha história aqui na Associação é muito interessante. Eu comecei como ouvinte e, aos poucos, fui me aproximando, entrando para o Conselho Consultivo e depois para o Conselho Deliberativo”, conta.
Hoje, como vice-presidente mais antigo da entidade, ele mantém uma atuação ativa nas áreas política e militar e reforça o papel da ACSP como escola de civismo e incubadora de lideranças: “Temos três pilares na ACSP: a livre iniciativa, a propriedade privada, e a política sem partido”.
O cuidado com o passado, a diversidade de experiências e a atenção aos detalhes históricos são, segundo ele, o que torna a Associação relevante não apenas para São Paulo, mas para o Brasil inteiro. Confira a entrevista:
Agência DC News – Para começar, poderia me contar sobre seu começo de vida?
Carlos Monteiro – Eu nasci na rua Araquã, próximo à rua Avanhandava, na Bela Vista. Era um oásis em São Paulo — um núcleo pequeno, originalmente loteado pela City, companhia inglesa que também loteou o Jardim Europa, sempre com uma característica de muita arborização e as ruas em curva, fazendo um balão. Era um lugar onde a gente jogava futebol na rua, andava de carrinho de rolimã… O pai de um grande amigo tinha um carro enorme, um Hudson, e fazia passeios com a gente no domingo de manhã. Era um momento aguardado! Ele sempre comprava tremoço — nada de pipoca ou amendoim. E até hoje eu como tremoço lembrando do doutor Firmino Whitaker, uma figura fantástica.
A família do senhor trabalhava em que setor?
Monteiro – Meu pai era arquiteto, formou-se na primeira turma da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, em 1952. Eu fiz formação em Engenharia Civil, na FAAP, em 1972. Era a época do Brasil Grande — Ponte Rio-Niterói, Usina de Itaipu… A FAAP hoje não tem mais curso de Engenharia. Ninguém quer ser engenheiro civil. As novas gerações são de advogados, mercado financeiro, TI, inteligência artificial….
E como começou a carreira?
Monteiro – Antes, tem uma passagem importante. Eu tive a oportunidade e o privilégio de estudar no Colégio São Luís, que era uma referência. Tenho um grupo de 20 amigos dessa época com quem falo e me encontro até hoje. O Guilherme Afif [presidente da ACSP entre 1982 e 1987] é do Colégio São Luís, um colégio jesuíta de grandes educadores, de muita disciplina, que me deu uma formação religiosa sólida. Quando terminei o colégio, em 1966, entrei para o CPOR [Centro de Preparação de Oficiais da Reserva], antes da faculdade. Tive o privilégio de fazer a arma de cavalaria. Também foi uma formação muito importante.
Como se desenvolveu sua vida profissional?
Monteiro – A minha empresa, Multihab, vai completar 55 anos prestando serviços na área de engenharia – reformas, construção de prédios, aeroportos, infraestrutura para a aeronáutica. Tenho mais vocação para a prestação de serviço do que para a indústria. E tenho uma paixão, que é minha fazenda na região de São Carlos [interior de São Paulo]. É a minha grande obra, comecei do nada. Criei limousin [raça de gado bovino de origem francesa], vaca de leite, carneiro, ovelhas… Hoje a única coisa que eu crio é caso [risos]. Me rendi à cana – como tem as usinas no meu entorno, atualmente a fazenda é dedicada à produção de cana, que vira açúcar ou álcool.
E como foi essa virada para o campo?
Monteiro – Não existe nada mais complexo do que uma fazenda. Na engenharia, você resolve parar de levantar um muro, dali a seis meses você volta, coloca mais tijolos e o muro está feito. Na fazenda não: ou você planta agora, porque vai começar a safra, ou só no ano seguinte. Na hora que você acha que está tudo resolvido, a bateria do trator arriou, o boi fugiu, acabou a luz etc. É muito menos controlável. Não tem tédio! Mas isso é o que motiva!
Na engenharia ou na fazenda, que história o senhor se lembra de um desafio importante que atravessou?
Monteiro – Todo dia tem um desafio. Na vida, tem três segredos, tá? São três P’s: persistência, paciência e porção de amigos. Tem um cara interessantíssimo que se chama Napoleon Hill. Ele entrevistou milhares de pessoas, personalidades no mundo político e empresarial, e foi vendo o que eles tinham feito, o que tinha dado certo ou errado, e resumiu tudo isso em 16 leis do triunfo. E ele fala um negócio interessante: ‘Você tem que andar um quilômetro e meio a mais’. Um exemplo: no dia 12 de agosto, o Gilberto Kassab fez aniversário e eu mandei uma mensagem. Ele respondeu ontem [18 de agosto]. Ele deve ter recebido 4.325 mensagens — e respondeu. É um cara que anda um quilômetro e meio a mais.
E como se deu a entrada do senhor na Associação Comercial?
Monteiro – A minha história aqui na Associação é muito interessante. Em 1975, eu trabalhava numa construtora que se chamava Perimetral, onde eu tinha começado como estagiário. E o dono da Perimetral foi candidato a presidente aqui na Associação Comercial. Ele vinha para cá com seu terno azul marinho, gravata, e eu, mais jovem, me deslumbrava com aquilo. Ele perdeu a eleição para o Paulo Maluf, na época, mas, a partir daí, eu comecei a frequentar a Associação como ouvinte. Depois, fui me aproximando, entrei para o Conselho Consultivo, depois para o Conselho Deliberativo… Há 30 anos, eu sou vice-presidente. Sou o vice-presidente mais antigo aqui da entidade, embora não seja o mais velho. E tenho uma participação muito ativa, cuido da parte institucional da entidade.
Quais são as atribuições do senhor hoje na Associação?
Monteiro – No institucional, cuido da área política e militar. Eu sou também presidente da Funceb, a Fundação Cultural do Exército Brasileiro, que é composta por civis e militares. Nós cuidamos do patrimônio do Exército, como os fortes e fortalezas. Ao longo da história, foram construídos mais de 1.200 fortes: o primeiro foi em Bertioga e o último é o Forte dos Andradas, aqui no Guarujá. E se o Brasil tem essa dimensão continental de 8 milhões e meio de quilômetros quadrados, deve-se muito a esses fortes, que cuidaram da nossa defesa. Desse universo, talvez tenham sobrado umas 300 fortificações e a fundação cuida do restauro através de recursos da Lei Rouanet ou de doadores. Nós temos também uma orquestra sinfônica maravilhosa, que fez 40 apresentações no ano passado.
Como convergem as duas entidades?
Monteiro – Por uma deferência da ACSP, a Funceb tem um espaço aqui no prédio [da ACSP]. Eu trago os comandantes militares e organizo visitas. Há uns 10 ou 15 dias, o Ministro da Aeronáutica esteve aqui – vamos ter um novo museu aeroespacial em São Paulo, no Campo de Marte. Então, nós [vice-presidentes] fomos até lá, nos receberam com um almoço. Estivemos também em Itaguaí, no sul de Jacarepaguá [Rio de Janeiro], onde estão sendo construídos submarinos, e em Aramar [Centro Industrial Nuclear Aramar ou CINA, na região de Sorocaba, São Paulo], onde tem o submarino de propulsão nuclear da Marinha. Temos planos de ir a Gavião Peixoto [região de Araraquara, em São Paulo], onde estão sendo montados os nossos caças [complexo da Embraer]. Há uma integração. Porque é um bem comum, né? Estamos pensando no país.
E o senhor, nessa posição de ser o vice-presidente mais antigo da ACSP, como avalia a importância estratégica da entidade para São Paulo e para o Brasil?
Monteiro – Aqui é uma escola de civismo. Você sabe como é que as associações comerciais começaram?
Não…
Monteiro – Então, é o seguinte: em 1808, D. João VI, quando chegou ao Brasil, veio fugindo da invasão de Napoleão, numa viagem de meses através do Atlântico, e vieram 10 mil portugueses entre a corte. Você imagina o que foi isso. O primeiro ato que ele assinou, chegando na Bahia, foi a liberação dos portos brasileiros para as nações amigas – era o acordo que ele tinha com a Inglaterra pela escolta na viagem. Então, começou a haver um grande movimento de mercadorias que saíam e chegavam ao porto, primeiramente em Salvador. Daí vem um modelo da cidade do Porto, em Portugal, que era uma associação que organizava esse comércio. Então, criou-se a primeira associação comercial do Brasil, em Salvador. E, a partir daí, vem Recife, Santos… Hoje, no Brasil, são cerca de 2.400. A Associação Comercial de São Paulo foi criada pelo [Coronel Antônio] Proost Rodovalho, um grande empreendedor da época, que foi o dono da Melhoramentos, indústria de papel etc. A Associação Comercial está nesse local [Centro de São Paulo] há 130 anos.
E suas premissas ainda permanecem, mesmo depois de todo esse tempo e mudança no mundo?
Monteiro – Essas associações comerciais têm alguns pilares: direito de propriedade, livre iniciativa, não tem partidos políticos, não tem nenhum recurso governamental. E isso não muda. A Associação Comercial vive dos seus serviços, o que lhe dá independência. Nesta casa, surgiram muitas lideranças: Paulo Maluf, Guilherme Afif, Gilberto Kassab, o [Luiz Flávio] D’urso… Recebemos também personalidades importantes — o [Gabriel] Galípolo, presidente do Banco Central, esteve aqui há 15 dias; o Michel Temer também. Isso só esse ano.
Há espaço para todas as vozes?
Monteiro – Claro. É uma entidade muito heterogênea. Tem grandes empresários, microempresários, associações do interior do estado — comerciais, industriais e até agrícolas. São mais de 400 associações no interior e 15 distritais aqui na capital. Isso dá uma capilaridade muito grande. Qualquer tema que você venha a discutir é muito rico porque tem diferentes segmentos, visões, opiniões, e isso ajuda muito a formar um conceito.
Nesses anos todos, o senhor poderia destacar uma conquista importante da Associação Comercial?
Monteiro – São inúmeras, né? Eu destacaria nossa representação política… O Guilherme Afif já foi candidato a presidente, hoje é um dos braços do [governador] Tarcísio. O Kassab tem um partido político, o PSD. O Paulo Maluf foi governador e prefeito de São Paulo. Então, eu acho que a atuação política da entidade é um grande legado. A entidade sempre se posicionou, defendendo a livre iniciativa, o pequeno empreendedor. Nós temos aqui uma referência, o Impostômetro; e agora o Gasto Brasil. É uma visualização para as pessoas do que o governo arrecada e do quanto ele gasta.
A participação do senhor em diversas entidades, como ACSP, Fiesp e Funceb, dá uma mostra de que o senhor vê um valor importante nas associações, sim?
Monteiro – Eu não sou remunerado. É evidente que amplio o meu relacionamento. Eu me atualizo não por jornais ou revistas, mas com o presidente do Banco Central, que esteve aqui; com o Ministro da Defesa, Múcio Monteiro, que esteve outro dia na Fiesp, onde sou membro do Conselho Político… Precisa gostar e dosar o tempo porque eu tenho minhas atividades da fazenda e da minha empresa. Mas tem um princípio que é o seguinte: se você quiser que alguma coisa seja feita, dê para alguém ocupado; o desocupado nunca tem tempo. Isso me rejuvenesce.
Com décadas olhando a cidade de São Paulo florescer, o que vê hoje?
Monteiro – São Paulo é um lugar extraordinário. Há cerca de três anos, demos um prêmio para um francês chamado Alex Allard, que trouxe um volume enorme de recursos e montou a Cidade Matarazzo. Lá tem a capela de Santa Luzia, que foi restaurada, um complexo de restaurantes, hotel… E esse francês, que chegou ao Brasil sem falar uma palavra de português, ama São Paulo. Ele diz o seguinte: ‘Vocês não sabem o que vocês têm. São Paulo é uma cidade 24 horas. Isso é extraordinário’. Poucas cidades no mundo são 24 horas como São Paulo. Às vezes, eu saio às cinco da manhã para viajar, a 23 de maio já está lotada. É incrível. Mesmo num momento de economia difícil, como agora, está todo mundo trabalhando, fazendo. Uma cidade que tem a força do imigrante.
E o que precisa ser feito para melhorar?
Monteiro – Eu acho que nós precisaríamos ter uma cidade um pouco mais humana. A Associação Comercial, por meio do presidente [Roberto Mateus] Ordine, e o governo do estado, através do governador Tarcísio [de Freitas], estão tentando recuperar o Centro, cultural e comercialmente. Trazer moradia para o Centro, trazer vida. São Paulo é uma cidade muito pulsante.
IMAGEM: Andre Lessa/DC News

