NR-1 entra em vigor e impulsiona expansão de franquias de medicina do trabalho
MedNet recebe investimento do fundo SMZTO e projeta triplicar número de unidades diante do aumento da demanda por serviços de saúde ocupacional. MPEs representam mais de 80% da carteira de clientes - segmento que concentra o maior potencial de crescimento nesse nicho, segundo a rede

A entrada em vigor das novas exigências da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) no último dia 26 de maio, que determina que as empresas identifiquem, avaliem e gerenciem riscos psicossociais no ambiente de trabalho, deve impulsionar o mercado de saúde ocupacional no Brasil.
De olho nesse cenário, o Grupo SMZTO, considerada uma das maiores holdings de franquias do país, anunciou investimentos na MedNet, rede especializada em medicina e segurança do trabalho.
Fundada em 1994, em Americana (SP), pelos médicos Paulo César Barbudo e Orjana Barbudo, a MedNet iniciou sua expansão por franquias em 2011. Atualmente, a rede reúne mais de 60 unidades em operação no país, atendendo cerca de 20 mil empresas de diferentes portes e segmentos.
Com a entrada da SMZTO como sócia minoritária, a expectativa é acelerar o crescimento da operação. A meta é alcançar mais de 200 unidades franqueadas nos próximos dois anos. A empresa faturou R$ 150 milhões em 2025, e projeta encerrar este ano com receita de R$ 200 milhões.
Segundo José Carlos Semenzato, presidente do conselho da SMZTO, a atualização da NR-1 foi um dos fatores que contribuíram para a decisão de investir no segmento. Além da nova regulamentação, ele destaca o ambiente regulatório trabalhista brasileiro e o modelo de negócios da MedNet como diferenciais relevantes para sustentar a expansão.
A nova norma amplia a atenção das empresas para riscos psicossociais relacionados ao trabalho, como estresse crônico, excesso de carga mental, jornadas prolongadas e situações de assédio moral. A partir da identificação desses fatores, os empregadores devem incorporá-los aos programas de gerenciamento de riscos e adotar medidas de prevenção e controle.
Para Paulo Barbudo, a regulamentação traz visibilidade a uma questão que já impactava a produtividade e a saúde dos trabalhadores, mas que frequentemente era tratada de forma reativa pelas organizações.
“O problema sempre existiu. A diferença é que agora as empresas passam a ter instrumentos para identificar os riscos, estabelecer prioridades e implementar ações preventivas antes que eles resultem em afastamentos ou outros problemas mais graves”, afirma.
De olho nas MPEs (mas com respaldo técnico)
Pioneira em franquias no segmento, segundo Paulo César Barbudo, sem um modelo para ser copiado 'nem fora do Brasil', foi preciso construir toda a infraestrutura para o crescimento da rede do zero - incluindo a criação de um software proprietário que integrasse todos os atores envolvidos na operação, como franqueadora, franqueados, empresa, engenheiros, médicos e colaboradores.
Outro desafio foi romper um paradigma do franchising, no qual, na maioria das vezes, o consumidor é uma pessoa física, que consome algum tipo de produto ou serviço por livre demanda, baseado em seus hábitos de consumo. "No nosso caso, quem nos contrata são pessoas jurídicas que precisam de um serviço obrigatório por lei. Foi necessário quebrar uma barreira cultural que existia e, por este motivo ainda é um segmento pouco explorado no mercado de franquias. Até a estrutura de marketing precisou ser repensada e adequada a este perfil de cliente", relembra.
A MedNet concentra suas operações principalmente nas micro e pequenas empresas, que representam mais de 80% de sua carteira de clientes. O segmento também concentra o maior potencial de crescimento. Segundo a empresa, cerca de 95% dos CNPJs ativos no Brasil pertencem a micro e pequenas empresas, universo que reúne aproximadamente 21 milhões de negócios e responde por mais da metade dos empregos formais do país.
Outro atrativo para investidores é o modelo de receita recorrente. A empresa atua exclusivamente no mercado B2B, com contratos de longo prazo para prestação de serviços de saúde ocupacional e segurança do trabalho. A rede também desenvolveu um sistema próprio para integrar franqueados, empresas clientes e profissionais responsáveis pelos atendimentos.
"Além do amplo e complexo arcabouço regulatório trabalhista no Brasil, que demanda que a maioria das empresas tenha algum suporte externo, a MedNet conta com sistema proprietário altamente customizável e um modelo operacional que faz com que os franqueados realizem negócios entre si - o que incentiva a abertura de novas unidades e dá impulso ao negócio de todos”, explica o investidor José Carlos Semenzato.
Mas é preciso ter cuidados com o 'hype': apesar das oportunidades criadas pela nova regulamentação, Barbudo alerta para a proliferação de soluções sem respaldo técnico que surgiram após a repercussão da NR-1. Segundo ele, as empresas devem avaliar com critério os fornecedores contratados para evitar gastos desnecessários e uma falsa sensação de conformidade.
“A NR-1 não foi criada para identificar trabalhadores doentes, mas para diagnosticar problemas na organização do trabalho e permitir que as empresas atuem preventivamente. O foco está na gestão dos riscos, e não apenas no tratamento das consequências”, afirma.
Na avaliação do médico-franqueador, organizações que estruturarem adequadamente seus programas de gerenciamento de riscos e monitorarem indicadores como absenteísmo estarão mais preparadas para reduzir passivos trabalhistas, melhorar o ambiente corporativo e elevar a produtividade.
"Ao mesmo tempo em que se protege os trabalhadores, as empresas também ficam protegidas de multas, processos trabalhistas e indenizações, cujos valores, em muitos casos, podem levá-las literalmente à falência, em especial quando se fala nas MPEs", reforça.
Segundo a MedNet, o investimento inicial para abertura de uma unidade gira em torno de R$ 250 mil, com margens de lucro entre 20% e 25%.
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