O mercado não vai esperar você entender
Inteligência artificial, computação quântica e um ambiente de negócios que não para de se reinventar estão reescrevendo as regras — com ou sem a sua permissão. O empresário brasileiro que ainda está 'estudando o assunto' já está ficando para trás

Havia uma fábrica de câmeras fotográficas em Rochester, Nova York. Ela tinha 145 mil funcionários, valia bilhões e dominava o mercado mundial de imagem por décadas. Ela inventou a câmera digital. E quebrou.
A Kodak não foi destruída pela concorrência. Foi destruída pela sua própria invenção — que ela mesma engavetou com medo de canibalizar o negócio principal. O que ninguém conta sobre essa história é o seguinte: os executivos sabiam. Tinham os relatórios, as projeções, os alertas internos. O que faltou não foi informação. Faltou a coragem de agir contra a própria zona de conforto.
Existe uma versão brasileira dessa história sendo escrita agora. E o protagonista involuntário pode ser a sua empresa.
O Brasil que ninguém vê na conversa sobre IA
Quando se fala em inteligência artificial no Brasil, a tendência é olhar para São Paulo, para as fintechs, para as startups de Pinheiros. Mas a história mais importante não está lá.
Está no dono de distribuidora em Goiânia que ainda fecha pedido por WhatsApp e planilha. No escritório de contabilidade em Joinville com 12 funcionários que passa três dias por mês conciliando lançamentos manualmente. Na clínica de Fortaleza, cujo telefone toca 200 vezes por dia para confirmar consultas que um sistema automatizado resolveria em segundos. Na indústria de Caxias do Sul que perde 15% da produção em retrabalho por falta de rastreabilidade em tempo real.
O Brasil tem 21 milhões de pequenas e médias empresas. A grande maioria ainda opera com processos desenhados para um mundo que já mudou. Nunca houve uma oportunidade tão grande — e um risco tão concreto — ao mesmo tempo.
A inteligência artificial é a primeira ferramenta da história capaz de amplificar produtividade nessa escala sem exigir investimento de grande empresa. Não é automação industrial cara e inacessível. É automação cognitiva, disponível por assinatura mensal, operável no celular, configurável sem equipe de TI. Uma empresa com 20 funcionários pode hoje operar com a capacidade cognitiva de uma com 80. Não metaforicamente. Literalmente.
Nomes e números que importam
A Nubank atende mais de 100 milhões de clientes com menos de 8 mil funcionários. Um banco tradicional precisaria de dez vezes mais gente para a mesma base. Essa não é uma vantagem de escala. É uma vantagem da inteligência artificial — construída por uma empresa brasileira, em solo brasileiro, com clientes brasileiros.
O JP Morgan usa IA para revisar contratos comerciais desde 2017. O sistema analisa 12 mil contratos por ano em segundos — trabalho que antes consumia 360 mil horas de advogados. A Klarna, fintech sueca, anunciou em 2024 que sua IA de atendimento realiza o trabalho equivalente ao de 700 agentes humanos, com tempo médio de resposta de 2 minutos contra 11 do modelo anterior.
Quando uma empresa do seu setor muda estruturalmente sua base de custos com IA, ela não apenas fica mais eficiente. Ela muda o piso do jogo. Quem não acompanha não apenas perde eficiência — passa a competir com uma estrutura que simplesmente não é mais sustentável. Nenhum desses casos exigiu investimento de grande empresa. Exigiu decisão.
A questão que todo empresário evita
Há uma pergunta que paira sobre qualquer conversa honesta sobre automação — e que a maioria dos artigos sobre IA convenientemente ignora: o que acontece com os funcionários?
A resposta direta: alguns cargos vão desaparecer. Atividades repetitivas, baseadas em regras fixas e processamento de informação padronizada já estão sendo absorvidas por sistemas de IA — e esse processo vai acelerar. Fingir o contrário seria desonesto.
Mas há outra parte da resposta que os alarmistas ignoram: a Nubank não precisou demitir para crescer. Cresceu sem precisar contratar na mesma proporção. O JPMorgan não dispensou seus advogados — liberou 360 mil horas para trabalho que máquina não faz.
As empresas que implementam IA de forma inteligente não estão encolhendo equipes. Estão redirecionando pessoas para as atividades onde a presença das pessoas realmente importa. O risco real não é a empresa que automatiza. É a empresa que não automatiza e perde para um concorrente que se automatizou — levando todos os empregos juntos.
A questão não é se a IA vai mudar o mercado de trabalho. Já está mudando. A questão é se o empresário vai liderar essa transição dentro da sua empresa — ou vai deixar o mercado liderá-la por ele, na forma de uma crise.
A aposta quântica: revolução real ou hype de US$500 bilhões?
Em janeiro de 2025, o governo americano anunciou o Stargate: mais de 500 bilhões de dólares em infraestrutura de IA e computação avançada. Nos meses seguintes, novos incentivos bilionários foram direcionados especificamente à computação quântica. A China já investiu mais de 15 bilhões de dólares no setor. Mas vale fazer a pergunta que os entusiastas evitam: e se demorar mais do que o prometido?
A história da tecnologia é cheia de apostas bilionárias que levaram décadas a mais do que o previsto. A fusão nuclear é "a energia do futuro" há setenta anos. A inteligência artificial geral teve seus próprios invernos. Por que a quântica seria diferente?
Em dezembro de 2024, o chip Willow do Google realizou em 5 minutos um cálculo que os melhores supercomputadores clássicos levariam 10 septilhões de anos para concluir. Isso não é progressão linear. É uma ruptura de categoria.
Em 2025, a Microsoft anunciou seu primeiro processador quântico baseado em qubits topológicos, considerados muito mais estáveis e escaláveis que as abordagens anteriores. A IBM opera processadores com mais de mil qubits. O ritmo de avanço não é linear — é exponencial. O ceticismo saudável é bem-vindo; mas há uma distância enorme entre "pode demorar mais" e "posso ignorar".
Para o empresário, o ponto não é entender quântica. É entender o sinal: quando as maiores economias do mundo alocam 500 bilhões de dólares numa aposta tecnológica, não estão fazendo P&D. Estão definindo quem vai controlar a fronteira econômica da próxima década. As empresas com base digital estruturada em IA vão absorver esse poder naturalmente quando ele chegar. As que chegarem atrasadas terão dois saltos para dar ao mesmo tempo.
O Brasil tem um ativo que o mundo está percebendo tarde
Enquanto a corrida global por IA se acelera, emerge um gargalo inesperado: energia. Treinar um único modelo de linguagem de última geração consome tanta eletricidade quanto tirar 500 famílias americanas de suas casas por um ano. Os Estados Unidos já enfrentam filas de anos para conexão elétrica em novos data centers. A Europa paga energia três vezes mais cara que a brasileira. A China queima carvão para alimentar seus clusters de IA.
O Brasil tem 83% da sua matriz elétrica de fontes renováveis — a mais limpa entre as grandes economias do mundo. Microsoft, Google, Amazon e Meta investiram bilhões em data centers aqui. Não por filantropia. Por necessidade estratégica.
Em nenhuma revolução tecnológica anterior o Brasil esteve tão bem posicionado na cadeia de infraestrutura global. A pergunta é se vamos ter empresas brasileiras dentro desse ecossistema — ou se vamos apenas alugar o território enquanto outros constroem sobre ele.
O novo normal é a instabilidade
Há uma ilusão reconfortante que muitos empresários ainda carregam: a de que existe, em algum momento à frente, uma linha de chegada. Um ponto onde tudo vai se estabilizar, onde a tecnologia vai "assentar" e será possível operar em paz. Esse ponto não existe mais.
Os ciclos de planejamento que antes duravam cinco anos agora duram dezoito meses. As certezas setoriais que sustentavam estratégias de longo prazo vêm sendo derrubadas em meses. O concorrente que você não vê hoje pode estar sendo criado agora por um empreendedor de 24 anos com acesso a ferramentas que antes só existiam dentro de multinacionais.
Adaptação não é mais uma resposta à crise. É uma competência permanente, tão estratégica quanto vendas ou finanças.
O empresário que vai prosperar nos próximos dez anos não é necessariamente o mais inteligente nem o mais capitalizado. É o que desenvolve conforto com o desconforto: a capacidade de tomar decisões boas com informação incompleta, de pilotar o avião enquanto ainda o constrói. Não como talento excepcional. Como rotina de gestão.
"A maioria das implementações de IA fracassa." Verdade — e o que fazer com isso
Há um argumento cético que merece ser levado a sério: estudos da McKinsey e do Gartner mostram que entre 60% e 70% dos projetos de transformação digital não entregam o retorno esperado. Isso é real. E é exatamente o argumento que os cautelosos usam para justificar a espera.
O problema está no que esses estudos medem: grandes projetos corporativos de transformação, com escopo amplo, consultorias caras, integrações complexas e objetivos mal definidos. São iniciativas que fracassam pelo excesso de ambição, não pela tecnologia em si.
A empresa que apenas tenta "transformar digitalmente tudo de uma vez" provavelmente vai falhar. A empresa que automatiza um processo pequeno, mede o resultado e expande — essa tem taxa de sucesso completamente diferente.
A distância entre esses dois cenários não é tecnológica. É de abordagem. Implementar uma ferramenta de IA para redigir propostas comerciais custa entre R$ 100 e R$ 300 por mês por usuário. Automatizar o agendamento com um chatbot de WhatsApp sai por R$ 300 a R$ 800 mensais para a maioria das PMEs. Conectar processos internos com plataformas como Make ou Zapier começa em menos de R$ 200 por mês. Não é infraestrutura. É assinatura de streaming.
O que fracassa são os projetos grandiosos sem dono claro e sem métrica definida. O que funciona é um processo irritante, uma ferramenta específica, uma métrica simples. Comece assim. Expanda quando funcionar.
O que fazer na segunda-feira de manhã — de verdade
Não contrate uma consultoria. Não monte um comitê de inovação. Não faça um workshop sobre transformação digital. Essas são formas sofisticadas de não começar.
Escolha o processo mais doloroso da sua operação. Aquele que toma tempo de gente boa em coisa que não exige julgamento humano. Pesquise qual ferramenta resolve especificamente aquilo. Teste por 30 dias. Meça antes e depois — horas economizadas, erros reduzidos, velocidade de resposta. Se funcionou, expanda. Se não funcionar, troque a ferramenta, não a estratégia.
A janela de vantagem está se fechando, não se abrindo. A empresa que começou há dois anos já tem dados, padrões, histórico. A que começar amanhã começa do zero — contra um concorrente que já corre há dois anos.
Reinvenção contínua não é uma fase da empresa. É o ritmo dela. Não existe linha de chegada — existe cadência de adaptação. As empresas que vão bem nesse ambiente não são as que fizeram uma grande transição. São as que criaram o hábito de se reinventar antes de precisar.
Existe um momento específico em que uma empresa percebe que ficou para trás. Não é quando os números despencam. É antes: quando um cliente menciona, quase de passagem, que o concorrente respondeu em dois minutos. Que a proposta chegou pronta no mesmo dia. Que o problema foi resolvido sem precisar ligar para ninguém. Nesse momento, a desvantagem já existe há meses. Só ficou visível agora.
A pergunta que vale fazer hoje não é "estamos crescendo?". É: "estamos nos reinventando na mesma velocidade em que o mercado muda?"
**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio**
IMAGEM: Gerada por IA

