O negócio da ex-boia-fria ganhou fermento e não para de crescer

Conheça a surpreendente trajetória da empreendedora Cleusa da Silva, fundadora da Sodiê Doces, hoje uma das maiores redes nacionais de franquias de bolo

Thais Ferreira
21/Out/2015
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O negócio da ex-boia-fria ganhou fermento e não para de crescer

Uma cena comum ao entrar numa 240 lojas da Sodiê Doces é ver a Cleusa Maria da Silva, fundadora de rede, conversando com os franqueados.

Ela não mede esforços para manter o padrão e a qualidade dos bolos servidos. Viaja do Nordeste ao Sudeste para esses encontros – quase sempre de carro porque tem medo de andar de avião. 

Cleusa é uma dessas empreendedoras que não consegue ficar longe do trabalho. Começou muito cedo: aos nove anos já trabalhava para ajudar a família. Com orgulho, conta que foi cortadora de cana e empregada doméstica. 

O talento para fazer bolos foi descoberto por acaso. Na época, ela era operária de uma indústria em Salto, no interior de São Paulo. A mulher de seu chefe fazia bolos e, ao quebrar o pé, pediu para Cleusa ajudá-la com uma encomenda.  

A habilidade da ex-boia-fria surpreendeu a doceira. E após essa primeira experiência, convidou Cleusa para atender aos próximos pedidos de suas clientes.

Como operária, ela ganhava um pouco acima do salário mínimo e não tinha dinheiro para comprar uma batedeira. A esposa de seu patrão a ajudou com esse primeiro gasto. 

Nos dois primeiros anos, Cleusa se dividia entre a jornada na indústria e as madrugadas no fogão. Trabalhava quase 20 horas todos os dias. 

Em 1997, abandonou a vida de operária e fundou a primeira loja Sodiê – uma união dos nomes de seus filhos Sofia e Diego. O primeiro imóvel tinha apenas 20m². A própria empresária fazia os bolos, atendia os clientes e controlava no caixa. 

OBSTÁCULOS VENCIDOS

Os primeiros anos foram difíceis. A falta de dinheiro e experiência prejudicava o andamento do negócio. Mas Cleusa nunca se rendeu. Trabalhou durante cinco anos todos os dias da semana – sem folgas ou férias. Ela mesma ia de ônibus comprar os ingredientes para os doces no mercado.

Criou sua própria receita e novos sabores. Tanto esmero compensou: cada vez mais clientes apareciam em sua doceria, por conta da propaganda boca a boca. Alguns vinham da capital paulista só para provar os deliciosos bolos feitos na pequena loja de Salto.  

“Sou uma pessoa muito crítica. Nunca estava satisfeita”, afirma Cleusa. “Eu podia manter a receita e me contentar com clientela da esposa do meu chefe, mas decidi buscar todos os dias, incessantemente,o crescimento da Sodiê.”

O sucesso ela atribui a coisas simples, como uma receita de bolo: produtos de qualidade com um bom preço, gastos menores que os ganhos (tanto na vida pessoal quanto na gestão da empresa) e uma administração eficiente. 

BOLO CHOCOTRUFAS COM MORANGO: UM DOS ÚLTIMOS LANÇAMENTOS DA SODIÊ. Foto: Divulgação

REDE DE FRANQUIAS

A ideia de montar uma rede de franquias surgiu dez anos depois da fundação da primeira loja.

Assim como quase tudo na trajetória de Cleusa, a oportunidade apareceu por acaso. Um cliente – que vinha de São Paulo para comprar os bolos – sugeriu que ela montasse uma franquia na capital. 

Na época, a empresária desconhecia essa palavra, mas decidiu se informar. Fez um curso na Associação Brasileira de Franquias e seguiu a risca todas as recomendações.

O primeiro franqueado foi justamente o cliente que havia sugerido o modelo de expansão. Nos dois primeiros anos foram inauguradas mais de 50 lojas. 

“Tive dúvidas se o negócio ia dar certo”, afirma Cleusa. “Minha preocupação era que nenhum de meus franqueados perdesse o dinheiro investido. Não pela marca, mas pelo prejuízo que essa pessoa teria.”

Hoje, a Sodiê Doces tem um plano de expansão consolidado: são 240 lojas espalhadas pelo país – e mais quatro serão inauguradas até o fim do ano. 

A seleção dos fraqueados é feita tanto por critérios financeiros como também pela análise da personalidade do candidato. 

Cleusa acredita que para ser um dos franqueados, o candidato deve ter vontade de empreender, e não apenas investir em algo rentável. ”É alguém que quer trabalhar de verdade porque é fundamental estar presente todos os dias e cuidar de todos os detalhes”, diz. 

Ela mesma dá o exemplo. Além de visitar constantemente as lojas, seu celular está sempre disponível para todos os franqueados.  

Nos últimos meses, a Sodiê tem sentido os efeitos da crise. O número de candidatos a novas franquias caiu e, em setembro, as vendas tiveram queda de 10%. 

Mesmo com os números negativos, na avaliação de Cleusa, a Sodiê está passando bem por essa crise. 

A empresa está investindo em campanhas publicitárias em grandes redes de TV. Outra medida foi contratar um consultor financeiro para orientar os fraqueados e renegociar com os fornecedores para garantir os melhores preços. 

“O país depende de gente que trabalha – e não de quem cruza os braços e fica pensando na crise. O Brasil vai sair dessa sem maiores problemas”, diz Cleusa.     

FACHADA DA LOJA DE RIBEIRÃO PIRES: INVESTIMENTO INICIAL NA FRAQUIA É R$ 440 MIL. Foto: Divulgação

FUTURO

Em 2016, Cleusa pretende dar mais um grande passo. Ela vai inaugurar a Universidade Sodiê Doces para melhorar o treinamento dos franqueados e funcionários. O endereço ainda não está definido, mas será na cidade de São Paulo. 

O exemplo veio das lojas de sapato da marca Arezzo. Cleusa ficava impressionada com a simpatia e bom atendimento dos vendedores. Pesquisou e ficou sabendo sobre os investimentos que empresa de calçados faz em treinamento. 

O projeto da Universidade Sodiê é funcionar como uma escola: primeiro é passar o conhecimento e depois repetir até que tudo seja assimilado. 

“Um bom atendimento faz como que uma pessoa volte numa loja”, diz Cleusa. “E hoje, a Sodiê não tem o atendimento que eu gostaria. ”

Está nos planos da empresária para o próximo ano também a expansão da marca para o exterior. O pedido veio de alguns franqueados que desejam empreender em outros países. 

A Sodiê está resolvendo questões burocráticas para conseguir uma autorização para liberar o uso de alguns produtos. Assim que essas pendências forem resolvidas, as primeiras lojas serão inauguradas. A ideia de Cleusa é levar os bolos com pequenas adaptações na receita. 

Aos 49 anos, a fundadora da Sodiê tem hábitos simples: nas poucas horas que não está trabalhando, gosta de ficar com a família, ir para a praia, ler livros e se manter bem informada. 

Ela começa a pensar em aposentadoria. E para isso, treina seu filho Diego Rabaneda para substituí-la nos negócios. “Ele está do meu lado o tempo todo e está aprendendo muito com o dia a dia da empresa”

Fotos: Divulgação 

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