Pastel verde-amarelo, bolsas, camisetas... as apostas de empreendedores para faturar na Copa

Empreendedorismo de ocasião fortalece pequenos negócios em datas sazonais, como o mundial esportivo

Márcia Rodrigues
24/Jun/2026
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Pastel verde-amarelo, bolsas, camisetas... as apostas de empreendedores para faturar na Copa

A Copa do Mundo costuma movimentar não apenas a paixão dos torcedores, mas também os negócios de milhares de microempreendedores espalhados pelo país. Com criatividade, planejamento e produtos temáticos, muitos MEIs e pequenos empresários aproveitam o período para aumentar o faturamento, testar novas ideias e atrair consumidores.

Setores de alimentação, artigos esportivos, vestuário, supermercados, atacarejos e papelaria costumam registrar aumento da demanda durante grandes eventos esportivos, segundo a analista de negócios do Sebrae-SP, Ananda Betônio. Ela afirma que, além do surgimento de negócios temporários, muitos empreendedores adaptam suas atividades para aproveitar o momento, criando produtos personalizados e serviços ligados ao universo da competição.

Produtos temáticos entram em campo

Foi justamente apostando na temática da Copa do Mundo que o projeto Sacola Tropical, ligado ao Instituto Rampa, lançou uma coleção especial de bolsas e acessórios. A iniciativa, criada em 2016, integra um projeto de geração de trabalho e renda para costureiras de comunidades da zona sul de São Paulo, segundo Gisela Heizenreder, presidente da ONG.

Atualmente, 17 costureiras participam da produção, realizada em espaços alugados em comunidades de Taboão da Serra, Capão Redondo e Campo Limpo. O projeto não possui ateliê próprio e remunera as participantes por produção.

Gisela Heizenreder (esq.) reúne 17 costureiras no Instituto Rampa. Para a Copa, elaboraram malas e nécessaires inspiradas no mundial, que são vendidas por preços que variam de R$ 79 a R$ 369  

 

A coleção da Copa reúne bolsas, malas e nécessaires inspiradas no evento esportivo. Os preços variam de R$ 79, no modelo de nécessaire, que também pode ser usado como bolsa tira-colo, a R$ 369, no caso da mala de mão.

A ideia surgiu a partir das edições limitadas lançadas anualmente pelo projeto. Em anos anteriores, as coleções tiveram como inspiração a fauna e a flora brasileiras e também uma colaboração com organizações sociais.

A expectativa em torno das novas coleções costuma mobilizar as costureiras. "Temos três ou quatro costureiras que amam futebol. Sempre que inventamos algo novo, elas ficam todas animadas", relata Gisele.

No ano passado, uma coleção limitada vendeu todas as 250 peças produzidas. Neste ano, foram confeccionadas inicialmente 100 unidades da linha inspirada na Copa, com possibilidade de ampliação da produção conforme a disponibilidade do fornecedor da matéria-prima.

Pastel verde e amarelo vira aposta para aumentar as vendas

No setor de alimentação, a criatividade também entrou em campo. A Oh Pastel Gourmet, empresa criada por Renato Cerqueira há sete anos na zona Sul de São Paulo, lançou um pastel com massa colorida inspirada na bandeira do Brasil.

A novidade começou a ser vendida uma semana antes da abertura da Copa do Mundo, após divulgação nas redes sociais da empresa. Até agora, entre 100 e 150 unidades já foram comercializadas. A estratégia segue uma experiência anterior bem-sucedida. Durante o lançamento do filme Barbie, a empresa criou um pastel rosa com glitter colorido, produto que chegou a representar cerca de 20% do faturamento do negócio naquele período.

Depois do sucesso com o pastel rosa da Barbie, Renato Cerqueira, da Oh Pastel Gourmet, apostou no verde e amarelo para entrar no clima dos jogos

 

O pastel temático da Copa do Mundo está disponível em dois tamanhos, de 18 e 24 centímetros, permitindo combinações de até três recheios. Os preços variam entre R$ 30 e R$ 35.

Com foco em delivery e participação em feiras gastronômicas, a expectativa é ampliar as vendas nos próximos eventos. Segundo Renato, a empresa participará de uma feira com público estimado em 30 mil pessoas e espera vender cerca de 300 unidades do pastel temático somente nessa ocasião.

Camiseta do Brasil é aposta de revendedora

A representante de vendas autônoma Priscila dos Santos Cardinali também aproveitou o momento para apostar em produtos ligados à Copa do Mundo. Ela trouxe 30 camisetas temáticas de dois modelos diferentes dos Estados Unidos e já vendeu praticamente todo o estoque. Restam apenas duas unidades.

Priscila trabalha com a revenda de eletrônicos, produtos de beleza e camisetas, adquiridos principalmente em outlets dos Estados Unidos. Segundo ela, a estratégia de aproveitar datas comemorativas e eventos sazonais faz parte da rotina do negócio.

As camisetas foram compradas por cerca de R$ 12 e revendidas por valores entre R$ 28 e R$ 45, dependendo do modelo e da disponibilidade. "Sempre aproveito datas sazonais para trazer produtos específicos para a data comemorativa", afirma.

Agora, o foco da empreendedora é o Dia dos Pais, com produtos adquiridos recentemente, incluindo garrafas de vinho trazidas da Argentina.

Redes sociais, delivery e planejamento ampliam oportunidades

O sucesso dos empreendedores que conseguem aproveitar grandes eventos está diretamente ligado à capacidade de adaptação e divulgação, segundo os especialistas ouvidos pela reportagem.

Ananda Betônio destaca que as redes sociais e os aplicativos de entrega ampliaram significativamente as oportunidades de venda. Segundo ela, enquanto o delivery permite que os consumidores continuem comprando mesmo durante os jogos, as redes sociais ajudam a aumentar a visibilidade de produtos temáticos e promoções especiais.

Na mesma linha, Marcelo Marani, fundador e CEO da Donos de Restaurantes, afirma que a Copa do Mundo altera o comportamento de consumo de grande parte da população ao mesmo tempo. Para ele, mais do que vender futebol, os empreendedores bem-sucedidos conseguem vender uma experiência coletiva ligada aos jogos.

Segundo Marcelo, muitos pequenos negócios estão apostando em estratégias simples, como a criação de combos especiais para os dias de jogo, vendas antecipadas por WhatsApp e presença em locais com grande circulação de pessoas.

Ele ressalta ainda que um dos principais erros de quem tenta aproveitar eventos de curta duração é agir sem planejamento, acumulando estoques excessivos ou deixando de calcular corretamente os custos e margens de lucro.

Ananda faz avaliação semelhante. Para ela, mesmo durante a realização da Copa do Mundo, ainda existem oportunidades de aumentar o faturamento, desde que o empreendedor mantenha foco no planejamento e utilize a temática do evento para fortalecer a visibilidade da marca.

Custo e estoque exigem atenção

Os principais erros estão atrelados à falta de planejamento, fazendo com que, muitas vezes, o oferecimento de produtos e serviços seja focado apenas na oportunidade momentânea de vender.

“Não levar em consideração, por exemplo, custos com estoque que pode ficar parado e atrasos em entregas por falhas logísticas podem afetar a saúde do negócio”, diz Ananda.

Marcelo pontua três erros:

- Começar tarde: a maioria acorda quando o torneio já começou. O planejamento precisa acontecer semanas antes;

- Não calcular os custos: o empreendedor vê o movimento, se empolga, compra estoque sem calcular CMV, sem precificar corretamente, e no final do mês descobre que vendeu muito e ganhou pouco, ou pior, ficou no prejuízo;

- Não construir relacionamento com o cliente que chegou: a Copa do Mundo traz um volume enorme de clientes novos. Quem não captura o contato dessa pessoa, quem não faz ela se sentir especial o suficiente para voltar depois, desperdiçou a maior oportunidade que o evento oferece. O jogo não é só durante a Copa. O jogo é transformar cliente de Copa do Mundo em cliente da vida.

Copa do Mundo pode deixar legado para os negócios

Embora seja um evento temporário, especialistas afirmam que os resultados podem se estender além do período dos jogos.

De acordo com Ananda Betônio, negócios criados para aproveitar a Copa podem se tornar fontes permanentes de renda quando há planejamento de longo prazo e estratégias de fidelização dos clientes conquistados durante o evento.

Marcelo concorda e afirma que a principal diferença entre quem consegue manter o crescimento e quem volta ao ponto de partida está na gestão.

Segundo ele, acompanhar vendas, entender quais produtos tiveram melhor desempenho e manter relacionamento com os clientes são fatores fundamentais para transformar uma oportunidade sazonal em um negócio duradouro.

“Enquanto tiver jogo, tem oportunidade”, diz Marcelo, que dá dicas:

- Foque no que você sabe fazer bem: não tente reinventar a roda no meio do torneio;

- Simplifique a operação: prefira poucos produtos, bem executados, com boa margem. Cardápio enorme em momento de alta demanda é receita para erro, desperdício e cliente insatisfeito; e

- Capture o cliente: WhatsApp, Instagram, qualquer canal. Cria relacionamento agora para vender depois.

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IMAGENS: divulgação

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