Rafael Forte, da VTEX: próximo passo da IA nas empresas será a tomada de decisão
O conselho do cofundador da plataforma de e-commerce para os empresários é que executem tudo o que for possível por meio da inteligência artificial

Imagine um cenário em que as decisões de negócios não dependem mais de reuniões intermináveis ou análises elaboradas de dados, mas sim de algoritmos capazes de escolher o melhor caminho em tempo real. Se hoje a inteligência artificial (IA) é utilizada prioritariamente para acelerar tarefas cotidianas, o próximo passo, segundo Rafael Forte, cofundador da plataforma de e-commerce VTEX, será a tomada de decisões autônoma.
Em entrevista ao Diário do Comércio durante o seminário "IA e o Futuro do Brasil", realizado na última segunda-feira, 1/6, pelo Conselho de Inovação (Conin) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), o executivo traçou um panorama sobre o mercado nacional, o protagonismo do consumidor latino-americano e os gargalos estruturais que o país precisa superar.
Para ilustrar como a IA está migrando do suporte operacional para a tomada de decisão prática, compartilhou um caso real de atendimento ao cliente que reflete a agilidade do varejo atual.
Uma cliente entrou em contato com uma loja para trocar um produto que havia acabado de receber, pois a peça estava com alarme de segurança. A própria IA monitorou a entrega em tempo real e identificou que havia uma loja física a apenas 400 metros da consumidora. Diante disso, a tecnologia tomou a iniciativa: sugeriu que a cliente fosse até a loja para resolver o problema rapidamente (retirar o alarme esquecido na peça). No entanto, a cliente preferiu não ir e resolver a questão sem sair de casa.
"Acontece que a cliente ligou exatamente na hora em que recebeu e, no sistema, ainda não constava que a entrega estava finalizada, o que costuma levar em torno de duas horas. E, por isso, não era possível dar início ao protocolo de devolução", disse Forte.
Ao informar a situação à cliente, a IA garantiu que monitoraria esse processo e, quando o sistema constasse formalmente como "entregue", poderia dar início automático ao processo logístico. "E assim aconteceu. Em um contato, a IA teve duas tomadas de decisão importantes sem nenhuma intervenção humana. Não temos ideia ainda do tamanho dos problemas do varejo que serão resolvidos pela IA. Quanto maior a eficiência, maior a chance de transferir o dinheiro do consumidor para o comércio."
Para explicar o atual momento de transição, o executivo faz uma analogia histórica com a descoberta da eletricidade. À época, ninguém sabia direito o que fazer com ela além de acender uma lâmpada. Ao longo do tempo, vimos sua utilidade real e potente. "Estamos nessa mesma fase de descoberta com a IA. Já temos processos que antes demoravam um ano para serem desenvolvidos e agora são resolvidos em poucas horas."
Diante disso, seu alerta ao empresariado é que, quem não estiver envolvido com a tecnologia, vai ficar para trás, fadado ao fracasso e à ineficiência, a ponto de tornar a empresa inviável. Seu conselho é que as organizações pensem e executem tudo o que for possível por meio da inteligência artificial, comportando-se como nativas nesse ambiente.
Para ele, o profissional do futuro é aquele que sabe se comunicar com a IA para ganhar tempo, portanto, as empresas precisam capacitar seus funcionários para liderarem essa ferramenta. Para as empresas que ainda estão perdidas sobre como começar a transição, o cofundador da VTEX dá uma dica simples: perguntar à própria IA o que ela pode fazer pela sua empresa e qual é a melhor maneira de usá-la.
Ao comentar a relação do Brasil com a tecnologia, ele destaca que o brasileiro é historicamente conhecido por sua curiosidade e liderança na adoção de novas tecnologias. Do lado do consumidor, a IA começou sendo usada para buscar especificações de produtos; do lado do lojista, o foco inicial está em decifrar a real intenção de compra do cliente e automatizar tarefas repetitivas.
Entretanto, apesar do entusiasmo de quem acompanha esse desenvolvimento tecnológico, o executivo faz duras críticas aos entraves macroeconômicos que impedem o Brasil de avançar na velocidade ideal.
Para ele, o país vem perdendo o protagonismo industrial e se transformando em uma economia essencialmente de serviços, enquanto o debate público se perde em burocracias. Entre os principais desafios a serem enfrentados, Forte destaca a burocracia digital, pois perde-se muito tempo discutindo a regulação da internet em vez de se criar uma mudança de postura que ajude os negócios com tributos excessivos. "Pagamos imposto antes mesmo de ter receita."
Outro ponto é que o país necessita de uma reforma estrutural para dar educação de qualidade e mudar o comportamento da população. "O que queremos para o nosso país? Não vejo nenhum objetivo claro sobre onde queremos chegar", questiona. "Mesmo diante desse ambiente hostil, o Brasil consegue posicionar empresas globais no mercado, mas que ainda são exceções, empresas self-made (feitas por si mesmas), frutos de uma força de vontade fora do comum dos empreendedores brasileiros. Poderiam ser tantas outras se o ambiente de negócios ajudasse", conclui.
IMAGEM: Andre Lessa/DC

