Representante da indústria de Portugal fala sobre parceria com a ACSP

José Eduardo de Carvalho, presidente da Associação Industrial Portuguesa (AIP), destaca que o acordo entre as entidades tem potencial para transformar protocolos institucionais em resultados práticos com metas e indicadores claros

Karina Lignelli
06/Mar/2026
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Representante da indústria de Portugal fala sobre parceria com a ACSP

Em um cenário econômico global cada vez mais caracterizado pela força dos blocos regionais, a cooperação entre associações empresariais torna-se um pilar decisivo para o sucesso da internacionalização. A avaliação é de José Eduardo de Carvalho, presidente da Associação Industrial Portuguesa (AIP), um dos palestrantes do Fórum de Integração Mercosul-UE, realizado na última quarta-feira (04) pela SP Chamber of Commerce da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

Em conversa com o Diário do Comércio, Carvalho defendeu que a parceria estratégica assinada com a ACSP em dezembro de 2025 é o passo necessário para consolidar Portugal como a porta de entrada de empresas brasileiras na Europa, permitindo o acesso a um mercado integrado e inovador. O presidente da AIP também analisou a complementaridade entre as economias, destacando que, enquanto Portugal e a Europa possuem uma base industrial e tecnológica consolidada, o Mercosul oferece uma potência agroalimentar fundamental, apesar dos receios protecionistas de alguns países do bloco europeu.

Com 98% do total de empresas portuguesas composto por micro e pequenos negócios — que hoje concentram 72% de suas exportações em poucos países europeus —, o presidente da AIP reforça a urgência de ganhar escala e buscar novos caminhos comerciais. "Precisamos dos mercados do Mercosul para diversificar", afirma.

Para ele, o futuro dessa relação não pode se limitar a protocolos formais; exige gestão profissionalizada baseada em KPIs (indicadores de desempenho), resultados concretos em fusões, aquisições e volume de negócios para concretizar estratégias para os próximos cinco anos. "É isso que nos fará (API e ACSP) trabalhar juntos."

Confira a entrevista: 


Diário do Comércio - Dentro da parceria estratégica firmada entre AIP e ACSP, como estão os desdobramentos do acordo Mercosul-UE?

José Eduardo Carvalho - É um acordo fundamental. Neste momento, há um conjunto de blocos regionais que condicionam todas as relações comerciais mundiais ao seu interesse. A integração de blocos regionais é importante, daí a necessidade de as associações empresariais construírem iniciativas para o sucesso deste acordo: capacitando suas empresas, cuidando dos aspectos regulatórios e das condições técnicas que estão neste momento subjacentes ao acordo e que precisam ser especificadas, mobilizadas e divulgadas junto das empresas. Isso só se consegue com as associações empresariais.

Por outro lado, há a necessidade de criar uma plataforma na qual as associações comecem a intermediar um conjunto de situações, como a escolha de parceiros viáveis. É preciso ganhar escala, é preciso ter balanços robustos, é preciso muita cooperação. As pequenas empresas não têm qualquer chance de se internacionalizarem se não ganharem escala e, nesse sentido, as associações empresariais são fundamentais. Só elas conseguem estabelecer um laço de cooperação e detectar deficiências e insuficiências de capital, balanço e escala.


Nesse contexto, os desafios para as pequenas empresas de Portugal se assemelham aos das brasileiras?

Carvalho - Estes blocos são muito distantes, mas são complementares. A Europa tem uma base industrial consolidada, tem muita inovação tecnológica em alguns setores. E é um mercado integrado: quando o Brasil exporta por meio de uma porta de entrada, que pode ser Portugal, exporta para toda a Europa sem qualquer tipo de restrição. Portanto, há uma integração nacional e isso é extremamente importante para os negócios.

Por sua vez, o Mercosul tem outras características, como uma produção agrícola fortíssima, que assusta os europeus. Mas temos que perceber as razões, as preocupações que existem. Quando alguém exporta US$ 220 bilhões no setor agroindustrial, todo mundo fica um pouco receoso. 


Parece que fica uma relação um pouco desproporcional. Mas como essa questão pode ser solucionada?

Carvalho - Há necessidade de cláusulas de salvaguarda que atestem a reciprocidade das relações e façam exigências sobre como está a produção interna. Neste momento, no caso do açúcar, a indústria perde competitividade na Europa porque há um conjunto de custos ambientais e reguladores que penalizam muito a competitividade desses produtores. É necessário também entender essa situação.

É um processo que durou mais de 20 anos e agora deu esse passo extremamente importante que eu acho que vai ter sucesso. Nós (Portugal) necessitamos muito, a Europa necessita muito destes mercados. Com restrições e medidas protecionistas que foram implantadas em alguns países, é importante encontrar novos caminhos.


Qual é o percentual de pequenos negócios em Portugal?

Carvalho - As pequenas e microempresas são 98% das empresas do país. 


Em que setor os pequenos negócios estão concentrados, na indústria?

Carvalho - Não, o peso do setor industrial está caindo tanto no VAB (valor bruto adicionado) como no PIB. Isso quase em toda a Europa, infelizmente, e em Portugal também. O setor do comércio e serviços é o que tem maior peso em número de empresas. Nós temos 535 mil empresas, sociedades comerciais, e só 40% exportam. E 72% dessas exportações estão concentradas na Europa, no mercado interno europeu. Precisamos diversificar. Só na União Europeia somos 72% e apenas quatro países recebem 52% das nossas vendas, que são Espanha, França, Alemanha e Itália. Portanto, precisamos dos mercados do Mercosul para diversificar.

 

E qual a expectativa dessa união entre as duas associações? Como será essa cooperação?

Carvalho - Estamos fartos de protocolos ineficazes. Nós achamos que deve ser criado um portfólio de KPI, no qual estabelecemos uma meta de cinco anos com os números das empresas que estão envolvidas nas relações comerciais: volume de exportações, volume de importações e o número de operações de fusão e aquisição que podem ser concretizadas durante este período. É isso que nos fará trabalhar em conjunto.

Em resumo, se nós não estabelecermos KPIs, não estabelecermos objetivos, não vai dar certo. Por isso, precisamos profissionalizar essa cooperação para atingir esses objetivos, esse desempenho. Isso é fundamental e espero que consigamos inaugurar esse processo com a ACSP. 

IMAGEM: Elisângela Marques/ACSP

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