Brasil vive paradoxo de desinformação na política
Cientista político norte-americano Joseph Uscinski acredita que coalizões formadas em cima de teorias conspiratórias irão ruir invariavelmente e defende que convicção ideológica não deve levar ninguém a pregar fake news

Em muitos anos de estudo sobre desinformação, o professor e doutor em ciência política norte-americano Joseph Uscinski, uma das maiores autoridades no tema, colecionou admiradores e pessoas que se ofendem com os resultados de suas pesquisas. O motivo: baseado em dados concretos, ele afirma que teorias conspiratórias sempre existiram e são usadas pelos perdedores do jogo político, seja qual for o lado em que eles estiverem. No caso do Brasil, no entanto, o uso desse recurso tanto por quem está fora quanto por quem faz parte do poder cria uma situação única e perigosa.
“É um paradoxo (a situação do Brasil). Políticos que se valem de teorias conspiratórias para construir coalizações estão brincando com fogo”, afirmou Uscinski em entrevista exclusiva concedida ao Diário do Comércio. Segundo ele, a desinformação gerada para conseguir apoio para projetos de poder é uma armadilha porque, no longo prazo, os próprios seguidores dessas ideias se voltarão contra o autor delas, simplesmente por ele estar no poder. “Pode levar tempo, mas acontecerá.”
É possível que já esteja acontecendo. O aprofundamento da crise de confiança institucional no país pode ser um dos reflexos. Somado a isso, o alto engajamento nas mídias sociais acirra a “batalha das verdades”. Uscinski, no entanto, tem uma posição bastante firme e vista como polêmica em relação às redes sociais. Ele tem sido um crítico do controle excessivo da internet. Para o especialista, a pretexto de evitar a disseminação de desinformação, as pessoas podem acabar perdendo a sua liberdade de expressão.
Controle das redes sociais e IA
Jogar a culpa nas mídias seria uma forma de desviar da origem real do problema. “As plataformas digitais não criam (informações falsas), as pessoas criam. As pessoas buscam teorias da conspiração online se quiserem, mas não são forçadas a fazê-lo, nem são forçadas a acreditar no que veem online”, defende.
A demonização de novas tecnologias, como a inteligência artificial (IA), como ferramentas de desinformação, entraria no mesmo raciocínio. “Você não precisa de IA para criar realidades falsas para as pessoas. Elas podem fazer isso sozinhas e fazem isso há milênios. Você poderia trocar a ‘IA generativa’ por livros, programas de televisão, programas de rádio ou conversas, e teria o mesmo dilema.”
Desde seu primeiro livro, publicado em 2014, o cientista político trata também da questão da sobreposição comercial a valores democráticos e jornalísticos nos veículos de imprensa. E, assim como acontece com a internet, ele destaca a importância de atacar o problema correto.
“Sempre houve veículos de comunicação que lucraram com histórias sem provas sólidas. Considere todas as revistas sensacionalistas, por exemplo”, diz. “O verdadeiro problema são os políticos que mentem: eles têm muitos seguidores que os ouvem”, completa. A ação deliberada das pessoas é que, na opinião dele, tem o poder de influenciar eleições.
Polarização x fake news
Perguntado sobre o impacto da polarização na proliferação de fake news, Uscinski é enfático: acreditar nesse tipo de informação está totalmente desconectado de qualquer partidarismo ou ideologia política. “Eles podem até se entrelaçar até certo ponto, mas ser um partidário ou ideológico convicto não torna ninguém necessariamente um conspiracionista.”
Até porque as pesquisas conduzidas pelo professor demonstram que a propagação e a crença em notícias falsas não se limitam a nenhuma raça, cor, afinidade de pensamento, idade ou gênero. Ele vem demonstrando, ao longo dos anos, sua teoria de que esse tipo de artifício é típico de perdedores, pessoas que ficaram de fora de um círculo de poder e lançam mão de desinformação para atacar opositores, como uma forma de redenção.
Segundo o professor, que vem acompanhando de perto os processos eleitorais norte-americanos, especialmente a partir de 2016 e a ascensão de Donald Trump, nos Estados Unidos, as teorias de conspiração tendem a oscilar de acordo com quem ocupa a Casa Branca, mas democratas e republicanos são igualmente propensos a elas. Se um democrata está no poder, as acusações de que esconde algo ou de fraude eleitoral recaem sobre ele. Se é um republicano nesse mesmo lugar, as acusações sobre ele são iguais.
E não é só fraude eleitoral, as ideias sobre informações supostamente escondidas incluem acordos geopolíticos, influências internacionais, assassinatos, imigração, questões ambientais, como contaminação da água, por exemplo, ou de saúde pública, como malefícios não revelados de vacinas.
Caça às bruxas
Em seus estudos, Joseph Uscinski, que é professor de Ciência Política da Universidade de Miami, possui PhD no tema pela Universidade do Arizona, e, desde 2020, é membro do Comitê para a Investigação Cética, analisou mais de 100 mil cartas enviadas ao jornal The New York Times entre 1890 e 2010 e descobriu que a mentalidade conspiratória não é nenhuma novidade, ela sempre fez parte da sociedade. Na verdade, é muito antiga, e um exemplo clássico foi a caça às bruxas desenfreada na época da Santa Inquisição, séculos atrás.
“As pessoas continuam sendo pessoas, então, nesse sentido, pouca coisa mudou. As pessoas sempre acreditaram em coisas que tinham poucas evidências a seu favor.”
A máxima vale também para o grande jogo de xadrez da geopolítica global, marcado por atritos entre países e guerras de narrativas entre potências como Estados Unidos e China, na disputa pelo poder de influência mundial. Questionado se o futuro do planeta depende da potência que conseguir convencer sobre a “sua verdade”, o pesquisador devolve a pergunta. “E não foi sempre assim?”
Além de The People’s News: Media, Politics and the Demands of Capitalism (As Notícias das Pessoas: Mídia, Política e as Demandas do Capitalismo), publicado pela New York University Press em 2014; Joseph Uscinski também é coautor de American Conspiracy Theories (Teorias da Conspiração Americanas), em conjunto com Joseph M. Parent e publicado também em 2014 pela Oxford University Press, e autor de Conspiracy Theories and the People Who Believe Them (Teorias da Conspiração e as Pessoas que Acreditam Nelas), publicado em 2018 pela Oxford University Press. É ainda autor de dezenas de artigos acadêmicos e de opinião.
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