Zema quer fim da CLT e reforma política com voto distrital
O ex-governador de Minas e pré-candidato à presidência pelo Novo esteve na ACSP, a casa do empresário, para apresentar seu plano de governo. No encontro, afirmou que vai levar sua candidatura até o final e, se não chegar ao segundo turno, irá apoiar qualquer um que estiver contra Lula

*Colaborou: Ubirajara Rodrigues
O ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), que deixou o cargo recentemente para se colocar como pré-candidato à presidência da República, classificou a tentativa do governo federal de acelerar a votação do fim da estaca 6x1 como uma manobra populista. "Lula se aproveita de um momento eleitoral para dar algo nocivo como prêmio”, afirmou o governador em passagem por São Paulo a convite da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), a casa do empresário.
A tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a 6x1 avança rápido na Câmara dos Deputados. A previsão é que o tema seja votado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) na próxima quarta-feira (15). Por fora, o governo tenta dar ainda mais celeridade, preparando o envio de um projeto de lei com urgência que substituiria a PEC, o que encurtaria o rito legislativo.
“Um governo populista e demagógico, em ano eleitoral, querendo implementar uma série de benefícios, mudar a jornada de trabalho, oferecer transporte gratuito, sem ter recursos, enquanto o país precisa produzir mais. É lastimável”, disse o ex-governador de Minas.
Para Zema, que é empresário e esteve à frente do Grupo Zema por 15 anos (conglomerado com mais de 850 unidades), o debate é “inoportuno e tecnicamente equivocado”. O ex-governador mineiro defendeu na ACSP que, em vez de endurecer as regras da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), o Brasil deveria caminhar para a extinção gradual dessa legislação. Sua proposta é trocar a CLT por modelos mais flexíveis, como o pagamento por hora, argumentando que a modernização das relações laborais tornou a legislação atual obsoleta.
Tendo Lula como único alvo na corrida eleitoral, Zema diz que, embora a direita tenha candidaturas pulverizadas e pautas nem sempre alinhadas, há um objetivo comum no segundo turno: derrotar a esquerda. “Os brasileiros que trabalham e pagam impostos irão tirar esses políticos vendidos.”
As chances do ex-governador de Minas seguir para o segundo turno são pequenas, segundo as pesquisas, que apontam entre 2% e 4% de intenção de votos no pré-candidato. As eleições de 2026 caminham, mais uma vez, para uma polarização, com Lula e Flávio Bolsonaro despontando.
A respeito das chances pequenas de ir para um segundo turno, Zema afirmou que sua campanha começou agora. “Em 2018 eu não tinha nem 2% das intenções de voto para o governo de Minas [venceu em segundo turno com 71,8% dos votos]. Só agora estamos começando a percorrer o Brasil para divulgar as propostas do Partido Novo, que são diferentes das do PL. Levarei essa campanha até o final”, afirmou.
O ex-governador de Minas entra em campanha com uma proposta de governo baseada em três pilares agressivos. O primeiro ele chama de reforma moral na política brasileira. “É preciso colocar para fora as peças podres, acabar com a farra dos intocáveis, pessoas que não respeitam a lei, como ministros do STF. Posso citar dois: Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, para que não haja mais políticos vendidos”, afirmou a jornalistas durante o encontro na ACSP.
Outro pilar é reduzir os gastos do governo central. “É um ciclo vicioso perfeito que Lula e o PT estão criando no Brasil. Quando disseram que a economia estava crescendo, eu alertei: o Brasil não está crescendo, está inchando. A partir de agora, vamos colher o que aconteceu em 2015/2016, com a recessão econômica do governo Dilma, quando três milhões de empregos foram ceifados. Naquela época, o Brasil entrou em marcha à ré enquanto o mundo crescia.”
O último pilar é o da segurança pública. “Há um caso em Minas Gerais em que um criminoso já assaltou 88 pessoas, levando o celular, e está solto. Hoje deve estar cometendo 89 assaltos. Vai ficar detido uma noite e será solto amanhã. Será que esse país está facilitando a vida do criminoso? Pretendemos mudar isso também. Este país se tornou uma fábrica de criminosos, começando por Brasília.”
Reforma tributária - Durante o encontro na ACSP, o ex-ministro da Micro e Pequena Empresa e atual secretário de Projetos Estratégicos do Governo de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, questionou Zema sobre a viabilidade de suspender os efeitos da reforma tributária caso seja eleito. Afif classificou o texto aprovado como "devastador para as empresas", argumentando que o próprio governo não teria plena compreensão do que foi votado.
Zema, embora crítico à complexidade da reforma, demonstrou cautela quanto a uma suspensão total, antevendo o aumento da insegurança jurídica. Em contrapartida, propôs uma meta de redução escalonada para a alíquota. "Minha sugestão é que a alíquota prevista, de 27%, seja reduzida para 24% ao longo dos anos. Com os novos recursos tecnológicos, temos a oportunidade de melhorar a eficiência na estrutura do setor público", afirmou Zema.
Com relação à reforma da Previdência, aprovada em 2029, o ex-governador de Minas defendeu que o aumento da expectativa de vida exige um novo ajuste imediato. Segundo ele, o equilíbrio financeiro do país depende de parâmetros que vinculem diretamente a longevidade ao tempo de contribuição. Além disso, propõe “um pente-fino rigoroso em programas sociais e aposentadorias para eliminar pagamentos indevidos.”
Voto distrital - Zema também defendeu uma mudança no sistema eleitoral brasileiro, posicionando-se a favor do voto distrital. Para ele, o modelo atual gera uma "disfuncionalidade na representatividade", em que grandes cidades ficam órfãs de defensores diretos no Congresso. "Sou favorável ao voto distrital. Uberaba, uma das nossas maiores cidades, não tem um representante no cenário nacional. Isso é uma falha, pois elegemos gente sem causa ou região definida. Precisamos de uma reforma que conecte o político à sua base", argumentou.
Empreendedorismo feminino - Ao destacar números positivos do empreendedorismo feminino no Brasil, que cresce a cada ano, a presidente do Conselho da Mulher Empreendedora e da Cultura (CMEC), Ana Cláudia Badra Cotait, pediu a Zema compromisso com as mulheres, em caso de vitória. “Eu sei que o senhor é um grande incentivador do empreendedorismo feminino, então é só um apelo, um pedido para que o senhor não se esqueça do empreendedorismo feminino no Brasil, porque nós giramos a economia desse país”, defendeu Ana Cláudia.
O pré-candidato reafirmou seu compromisso com as mulheres, citando exemplos na gestão de Minas Gerais. “Pela primeira vez na história, uma mulher ocupou a Secretaria da Agricultura, a Secretaria do Meio Ambiente, o comando do Corpo de Bombeiros, e eu fui o governador que mais nomeou desembargadoras para o Tribunal de Justiça”, relatou.
O debate foi presidido pelo líder do associativismo nacional, Alfredo Cotait Neto, presidente da Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB), da Federação das Associações Comerciais e Empresariais do Estado de São Paulo (Facesp) e da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), e coordenado pelo ex-senador Heráclito Fortes, atual coordenador do Conselho Político e Social (Cops) da ACSP. “Admiro a sua determinação em ajudar o Brasil. Foi muito bom conhecer suas ideias e o seu trabalho", disse Cotait ao final da reunião.
LEIA MAIS
Zema: 'Nosso objetivo como centro-direita é tirar o PT do poder'
IMAGENS: André Lessa/DC

