Casa da Boia chega aos 125 anos com vocação cultural
Terceira geração do negócio, Mario Rizkallah (na foto) diz se sentir impelido a ir além da venda de peças hidráulicas, dando novos usos ao prédio histórico criado pela família

Uma loja de rua que testemunhou acontecimentos históricos, como a inauguração da Estação da Luz (1901), e tem em sua lista de clientes nomes como Ramos de Azevedo, o engenheiro arquiteto por trás do Theatro e do Mercado Municipal, é, sem dúvidas, mais do que um comércio, é um símbolo da gana empreendedora do paulistano.
Esse simbolismo permeia a história da Casa da Boia, que hoje, dia 18 de maio, completa 125 anos de atividades na rua Florêncio de Abreu, no centro de São Paulo. A empresa é também a mais antiga afiliada em atividade da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), uma ligação que vem desde 1952.
Atendendo principalmente às pequenas e médias indústrias metalúrgicas e de construção civil, que representam aproximadamente 85% da receita da loja, a Casa da Boia é figura vital da formação do centro histórico da capital como polo comercial e cultural.
E é nesse aspecto que o empresário Mario Roberto Rizkallah, 72 anos, diz se sentir evocado. Representante da terceira geração da Casa da Boia, é ele quem hoje mantém viva a tradição do negócio - e também do imóvel -, preservando as atividades comerciais e reinventando o uso do espaço a partir de toda a memória da empresa.
Além de seguir vendendo materiais hidráulicos, a Casa da Boia recebe grupos de visitantes mensalmente em seu próprio museu, no terceiro andar do mesmo prédio, onde está exposta uma coleção de antiguidades de seu pai e peças de arte de sua esposa Adriana, que é artista plástica.
Em um dos quartos estão móveis de época — a exemplo de uma antiga máquina registradora, uma escrivaninha e um mostruário de peças. Pelas outras salas, espalham-se peças que foram confeccionadas na fundição, como canos, suportes para gravatas, bengalas e guarda-chuvas, além de, claro, a boia, que deu nome ao comércio.
Para tanto, Mario mantém um contrato com os historiadores Renata Geraissati e Diógenes Sousa, que além de pesquisarem e documentarem tudo o que diz respeito à memória do espaço, conduzem os grupos por visitas monitoradas pelo próprio comércio, museu e prédio como um todo.
A partir do momento em que as empresas passaram a deixar o Centro em direção à Avenida Paulista, Mario entendeu que era preciso diversificar e preservar, especialmente, o aspecto cultural do estabelecimento. Nesse sentido, ele cita o resgate do ofício, o respeito ao pequeno empreendedor, ao artista, aos artesãos, que fazem parte do propósito da empresa.
Envolvido com o empreendimento desde os oito anos de idade, quando passou a visitar o estabelecimento com mais frequência, Mario relembra momentos especiais na região, quando ainda era possível, por exemplo, passar de carro pelo viaduto Santa Ifigênia. Um de seus passeios preferidos, quando ainda criança, era tomar frappé de coco na Leiteria Paulista, na Xavier de Toledo.
Ele recorda também com carinho da comemoração ao centenário da Casa da Boia, em 1998, quando a família resolveu fazer um restauro minucioso do prédio, tombado pelo Condephaat, em 1992. A construção hoje mantém, na fachada, o amarelo claro original da primeira pintura.
Parte dessa trajetória é também retratada nas mídias sociais da Casa da Boia - missão que ficou a cargo da quarta geração, simbolizada por Luiza, filha de Mario. Aos 25 anos, ela segue a profissão de chef patissier, mas mantém envolvimento com a empresa criada pela família.
Entre o fim do século 19 e começo do 20, a Rizkallah Jorge Filhos, nome original da Casa da Boia, fundada em 1898, era uma das poucas lojas que comercializavam as peças hidráulicas confeccionadas em bronze em sua fundição. Sifões e boias de caixa-d’água eram os itens mais procurados para os raros banheiros com água e esgoto encanados.
A história também conta que a empresa foi a primeira a fabricar e comercializar boias de caixa-d’água e por isso ganhou o apelido. E desde que sua história começou no Centro de São Paulo, a empresa se mudo apenas uma vez, em 1909 - e nem foi de endereço, apenas de número -, indo para o número 123 da rua Florêncio de Abreu, um casarão histórico.
Tudo ali relembra seu antepassado e conta um pouco da história da família Rizkallah. Em um breve resumo, Mario conta que quando seu avô Jorge veio da Síria para o Brasil em busca de trabalho, se empregou como faxineiro numa loja de metais.
Sem falar português, o imigrante dominava o trabalho que havia aprendido com seu pai. Aos poucos, foi ganhando familiaridade com a língua e mostrando seus conhecimentos ao patrão. Após três anos, já havia juntado dinheiro suficiente para, em 1898, comprar o negócio que o empregara como faxineiro. Onze anos depois, planejou e ergueu o casarão que até hoje abriga o negócio.
"É muita história e acredito que esse seja o mote do nosso negócio. Hoje, de certa forma, é o museu quem abastece a loja, não com produtos, mas com informações históricas. E julgo isso como um diferencial”, diz o empresário.
IMAGEM: Edu Grigaitis/Divulgação

