Fecham mais lojas e restaurantes do que abrem em São Paulo
Sem considerar os MEIs, saldo entre abertura e fechamento de estabelecimentos é negativo há três anos, de acordo com a Hoff Analytics. Economistas e lojistas apontam juros, apostas esportivas e endividamento como fatores de pressão

Num momento em que o Brasil registra renda recorde e desemprego em mínima histórica, um sinal preocupa os varejistas: a cidade de São Paulo acumula mais fechamentos do que aberturas de empresas do comércio há três anos, enquanto as vendas desaceleram.
Levantamento da Hoff Analytics, com base em dados da Receita Federal, e excluindo os MEIs (microempreendedores individuais), revela que, em 2025, o comércio registrou saldo negativo de 1.283 empresas. Em 2024, o déficit havia sido ainda maior, de 8.806 estabelecimentos.
A situação é pior entre os restaurantes, que acumulam mais fechamentos do que aberturas desde 2021. O saldo foi negativo em 3.409 estabelecimentos em 2025 e em 4.698 em 2024.
Em um período maior, entre 2020 e 2025, o número de empresas abertas no comércio cresceu apenas 2,3%, enquanto o de restaurantes caiu 40,2%.
Os números sugerem um ambiente mais desafiador para o comércio e os restaurantes na capital paulista, apesar do mercado de trabalho aquecido, avaliam lojistas e economistas.
Dados de faturamento da Fecomercio-SP reforçam essa avaliação. No primeiro trimestre deste ano, o faturamento do comércio na capital paulista caiu 6,7% sobre igual período do ano passado.
A desaceleração ganhou força no início deste ano. Após recuar 2,9% em novembro, o faturamento caiu 4,9% em janeiro, 10,5% em fevereiro e 4,8% em março.
Entre os nove setores analisados, apenas o de vestuário, tecidos e calçados registrou alta de vendas, de 1,8%, no primeiro trimestre deste ano sobre igual período de 2025 em São Paulo.
Autopeças, concessionárias, farmácias, lojas de eletrodomésticos, materiais de construção, móveis e decoração e supermercados faturaram menos que no ano passado, no período.
Razões
Para economistas e representantes do setor, o aumento dos fechamentos e a desaceleração das vendas resultam de uma combinação de fatores.
Entre os principais fatores apontados estão as altas taxas de juros, a expansão das apostas esportivas, o elevado endividamento das famílias e a inadimplência dos consumidores.
“Juros altos e desaceleração do consumo ajudam a explicar boa parte do fechamento de empresas”, afirma Guilherme Dietze, assessor econômico da Fecomercio-SP.
O avanço das apostas esportivas, afirma, é outro fator de pressão sobre o consumo.
Pesquisa da Fecomercio-SP divulgada em maio mostrou que 35% dos consumidores paulistanos fazem apostas em plataformas online com o objetivo de elevar a renda.
São dez pontos percentuais a mais que o da pesquisa feita em 2024.
Outros 39% afirmaram que, se não destinassem recursos às apostas, gastariam mais com lazer, turismo e restaurantes.
“Esse comportamento tem um efeito crucial sobre as vendas do comércio”, afirma Dietze.
Os dados sobre o endividamento das famílias, diz ele, são outro grande desafio para os varejistas.
Em maio deste ano, 74,2% das famílias paulistanas tinham alguma dívida, o maior percentual desde novembro de 2022 (76,3%). Em maio do ano passado, esse percentual era de 71,2%.
A inadimplência do consumidor, embora considerada controlada, continua alta: 21% das famílias estão com alguma dívida em atraso. Eram 26% em 2022.
Ulisses Ruiz de Gamboa, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), diz que os dados mostram que a economia brasileira vive uma espécie de bolha, sustentada por emprego aquecido e programas de transferência de renda. “O consumidor está comprando o essencial.”
Os números da cidade de São Paulo espelham o que está acontecendo em todo o país, de acordo com Fábio Silveira, sócio-diretor da MacroSector Consultores.
“Até mesmo setores mais dinâmicos da economia, como o agronegócio, que registrou rentabilidade elevada nos últimos anos, estão enfrentando aumento da inadimplência.”
Para Silveira, anos de taxas de juros elevadas ajudam a explicar esse quadro. Chega uma hora, diz, em que o consumo cai mesmo com indicadores ainda positivos.
“Como uma empresa, que tem de ter capital de giro para manter estoques, consegue se manter com essa taxa de juros? O lojista precisa de juro baixo para o financiamento. Se o emprego e a renda não estivessem bons, a situação do país seria ainda pior.”
De dez setores considerados pela Hoff Analytics, excluindo os MEIs, somente três apresentaram saldo positivo entre abertura e fechamento de estabelecimentos entre 2022 e 2025 em São Paulo.
São eles: informática, comunicação e eletrodomésticos (5.642), comércio não-especializado (2.587) e combustíveis para veículos (22).
Com MEIs
Se incluídos os MEIs, o panorama é diferente. O saldo entre abertura e fechamento de lojas e restaurantes é positivo desde 2020, com exceção para restaurantes em 2022, de acordo com a Hoff Analytics.
Em 2025, o saldo ficou positivo em 33.320 para o comércio e em 6.512 para os restaurantes. Em 2024, em 25.201 e em 5.413, respectivamente.
“Nem sempre o crescimento de MEIs indica crescimento econômico. Muitas vezes, representa o contrário. Perco o emprego e abro MEI”, diz Fábio Pina, economista da Fecomercio-SP.
Para ele, se as grandes empresas estão entrando com pedidos de recuperação judicial em níveis recordes, a situação das pequenas e médias tende a ser ainda mais delicada.
Neste momento, afirma, há empresas que, sem crescer, desmembram suas operações em dois ou três MEIs da mesma família para reduzir a carga tributária. Os salões parceiros de cabeleireiros são exemplos.
“A trajetória para a economia é ruim. Estamos artificialmente injetando dinheiro para o consumo com programas sociais, só que não está tendo impacto”, afirma.
Perspectivas
Lojistas e economistas não veem mudança nesse cenário neste ano.
De acordo com a Hoff Analytics, excluindo os MEIs, no primeiro trimestre deste ano, o saldo entre abertura e fechamento de empresas continua negativo no setor do comércio (-1.851) e no de restaurantes (-3.211) na cidade de São Paulo.
Com os MEIs, a situação se inverte. Saldo é positivo para o comércio (+11.202) e para restaurantes (+4.043). Os dados sugerem que a tendência observada nos últimos anos se mantém em 2026.
“Não vejo mudança deste cenário no curto prazo. Para que o país tenha um ambiente econômico saudável no longo prazo, é necessário um ajuste fiscal acompanhado de redução da carga tributária”, diz Pina.
“Se o eixo da política econômica continuar sendo o aperto monetário, não há quem resista, nem empresas nem consumidores”, diz Silveira.
Para ele, a economia brasileira está desequilibrada. “Cresce, mas estruturalmente e macroeconomicamente não funciona de maneira saudável”, afirma.
Nesse contexto, embora emprego e renda permaneçam em níveis historicamente favoráveis, a tendência é que o fechamento de estabelecimentos continue superando a abertura de empresas em diversos segmentos, como mostram os indicadores do início de 2026.
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IMAGEM: Renato Stockler/Folhapress

