Liberdade! Liberdade! Livre, em breve, dos carros?!

Prefeitura de SP lançou consulta pública para abrir ruas do bairro da Liberdade para pedestres aos domingos e feriados e promover obras viárias de melhorias urbanas

Vitor França
04/Jul/2023
Economista pela FEA-USP e mestre em economia pela FGV-SP
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Liberdade! Liberdade! Livre, em breve, dos carros?!

Para quem, como eu, gosta de andar pela cidade, ver ruas vibrantes, cheias de gente, passear por comércios diversos, descobrir novos e inusitados restaurantes, o bairro da Liberdade é, sem dúvida, um dos mais interessantes de São Paulo.

Os mercadinhos orientais, os postes, grafites e fachadas que rementem ao Japão, os restaurantes chineses, a história ligada ao movimento negro e à luta contra a escravidão; tudo isto, misturado em um único lugar, criou um ambiente único na cidade, no Brasil e, quiçá, no mundo, o que faz o bairro ser um dos mais visitados e movimentados da capital.

O nome do bairro, para quem ainda não sabe, remete ao movimento negro. Conforme nos conta o advogado Renato Igarashi em um post que viralizou no Facebook em 2018, “a Praça da Liberdade (agora Liberdade África-Japão), muito antes da chegada da comunidade japonesa, se chamava Largo da Forca, pois era palco de execução de escravos negros fugitivos e condenados à pena de morte. Foi, aliás, por causa de um negro que a praça e o bairro foram chamados de Liberdade.”

“Em 1821, um soldado chamado Chaguinha, condenado à morte por liderar uma rebelião por pagamento de soldo, sobreviveu a duas tentativas de enforcamento, ao que o público atribuía a um milagre e passava a gritar ‘liberdade’ - só foi morto após o carrasco usar um laço de vaqueiro.”

“Chaguinha, então, se tornou um santo padroeiro do bairro e protetor da Capela dos Aflitos, onde esteve antes de ser levado à forca, e da Igreja Santa Cruz dos Enforcados, construída décadas mais tarde em frente à praça.”

“O bairro da Liberdade nasceu sobre um cemitério a céu aberto, o Cemitério dos Aflitos, construído em 1774, onde eram enterrados pobres, indigentes e escravos (os mais ricos eram enterrados em igrejas). Quase na mesma época, em 1779, foi erguida a Capela dos Aflitos. Também foi o bairro em que, após a abolição da escravidão em 1888 e sem direitos básicos, a população negra se concentrava em busca de trabalho.”

Sem querer fazer qualquer tipo de equiparação à luta por liberdade dos negros escravizados – que, de certa forma, ainda continua hoje como uma luta contra o racismo, a injustiça e a desigualdade –, não dá para deixar passar um novo significado simbólico que o nome do bairro está prestes a ganhar: a liberdade em relação aos carros.

No dia 21 de junho, a Prefeitura de São Paulo colocou em consulta pública a proposta de que cinco ruas do bairro sejam fechadas para veículos e recebam apenas pedestres aos domingos e feriados, como já ocorre na Avenida Paulista.

Em um segundo momento, conforme o site da Prefeitura, estão previstas “obras viárias de melhoria no calçamento, que visam melhorar a segurança viária na região e o estímulo à caminhabilidade dos pedestres; a implementação de canteiros de jardins de chuva; e a proposição de novas travessias de pedestres – comuns e elevadas”.

A consulta pública estará disponível até 21 de julho e, pelo que pude notar até agora, as propostas vêm recebendo amplo apoio da população – com as ressalvas de que deveriam ser acompanhadas por medidas de segurança pública e fiscalização contra o comércio informal.

Conforme já comentei em outro artigo aqui no Diário do Comércio, ruas abertas para pedestres e calçadas que favoreçam e incentivem a caminhabilidade fazem parte de um conjunto de medidas adotadas por várias metrópoles pelo mundo para diminuir a poluição atmosférica, os acidentes de trânsito, combater o sedentarismo, a crise climática e tornar as cidades lugares melhores para se viver.

Enfim, são medidas que também representam uma luta contra o predomínio dos automóveis, que escravizam não apenas quem depende deles, mas todo o restante da cidade ao capturar os espaços das ruas, que poderiam ser mais seguras e utilizadas por pedestres e bicicletas.
 
Ainda que o Projeto Ruas Abertas já esteja consolidado na Avenida Paulista e tenha sido testado em outras vias da cidade – como a Avenida Sumaré, por exemplo –, enxergo certo pioneirismo na proposta para o bairro da Liberdade, que envolve não apenas a abertura de ruas para pedestres aos domingos e feriados, mas também intervenções permanentes com o objetivo de tornar o local mais caminhável e agradável para as pessoas, como alargamento de calçadas, melhoria da iluminação, instalação de mobiliário urbano, arborização e implantação de biovaletas e jardins de chuva.
 
Torço muito para que a medida avance; e para que não paremos por aí. Uma boa notícia é que já foi assinado um acordo de cooperação entre a Prefeitura de São Paulo, o SESC-SP e o Itaú Cultural para a criação do Boulevard do Rádio, que vai envolver a requalificação do trecho da Rua Leôncio de Carvalho entre a Avenida Paulista e a Alameda Santos. Outra ótima medida!
 
Na mesma região, também está previsto um Boulevard ligando o Complexo Cidade Matarazzo à Avenida Paulista. Há ainda a expectativa de implantação de um boulevard na Rua Gravataí, interligando o Parque Augusta à Praça Roosevelt.
 
Outro local que poderia receber um projeto do tipo, com alargamento das calçadas, arborização e instalação de mobiliário urbano, é o entorno do Allianz Parque, conforme eu mesmo sugeri em artigo aqui no Diário do Comércio.
 
E para você, leitor, que outras áreas da cidade poderiam ser abertas para pedestres e receber projetos de requalificação urbana?

 

IMAGEM: Newton Santos/DC

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