Liberdade! Liberdade! Livre, em breve, dos carros?!
Prefeitura de SP lançou consulta pública para abrir ruas do bairro da Liberdade para pedestres aos domingos e feriados e promover obras viárias de melhorias urbanas

Para quem, como eu, gosta de andar pela cidade, ver ruas vibrantes, cheias de gente, passear por comércios diversos, descobrir novos e inusitados restaurantes, o bairro da Liberdade é, sem dúvida, um dos mais interessantes de São Paulo.
Os mercadinhos orientais, os postes, grafites e fachadas que rementem ao Japão, os restaurantes chineses, a história ligada ao movimento negro e à luta contra a escravidão; tudo isto, misturado em um único lugar, criou um ambiente único na cidade, no Brasil e, quiçá, no mundo, o que faz o bairro ser um dos mais visitados e movimentados da capital.
O nome do bairro, para quem ainda não sabe, remete ao movimento negro. Conforme nos conta o advogado Renato Igarashi em um post que viralizou no Facebook em 2018, “a Praça da Liberdade (agora Liberdade África-Japão), muito antes da chegada da comunidade japonesa, se chamava Largo da Forca, pois era palco de execução de escravos negros fugitivos e condenados à pena de morte. Foi, aliás, por causa de um negro que a praça e o bairro foram chamados de Liberdade.”
“Em 1821, um soldado chamado Chaguinha, condenado à morte por liderar uma rebelião por pagamento de soldo, sobreviveu a duas tentativas de enforcamento, ao que o público atribuía a um milagre e passava a gritar ‘liberdade’ - só foi morto após o carrasco usar um laço de vaqueiro.”
“Chaguinha, então, se tornou um santo padroeiro do bairro e protetor da Capela dos Aflitos, onde esteve antes de ser levado à forca, e da Igreja Santa Cruz dos Enforcados, construída décadas mais tarde em frente à praça.”
“O bairro da Liberdade nasceu sobre um cemitério a céu aberto, o Cemitério dos Aflitos, construído em 1774, onde eram enterrados pobres, indigentes e escravos (os mais ricos eram enterrados em igrejas). Quase na mesma época, em 1779, foi erguida a Capela dos Aflitos. Também foi o bairro em que, após a abolição da escravidão em 1888 e sem direitos básicos, a população negra se concentrava em busca de trabalho.”
Sem querer fazer qualquer tipo de equiparação à luta por liberdade dos negros escravizados – que, de certa forma, ainda continua hoje como uma luta contra o racismo, a injustiça e a desigualdade –, não dá para deixar passar um novo significado simbólico que o nome do bairro está prestes a ganhar: a liberdade em relação aos carros.
No dia 21 de junho, a Prefeitura de São Paulo colocou em consulta pública a proposta de que cinco ruas do bairro sejam fechadas para veículos e recebam apenas pedestres aos domingos e feriados, como já ocorre na Avenida Paulista.
Em um segundo momento, conforme o site da Prefeitura, estão previstas “obras viárias de melhoria no calçamento, que visam melhorar a segurança viária na região e o estímulo à caminhabilidade dos pedestres; a implementação de canteiros de jardins de chuva; e a proposição de novas travessias de pedestres – comuns e elevadas”.
A consulta pública estará disponível até 21 de julho e, pelo que pude notar até agora, as propostas vêm recebendo amplo apoio da população – com as ressalvas de que deveriam ser acompanhadas por medidas de segurança pública e fiscalização contra o comércio informal.
Conforme já comentei em outro artigo aqui no Diário do Comércio, ruas abertas para pedestres e calçadas que favoreçam e incentivem a caminhabilidade fazem parte de um conjunto de medidas adotadas por várias metrópoles pelo mundo para diminuir a poluição atmosférica, os acidentes de trânsito, combater o sedentarismo, a crise climática e tornar as cidades lugares melhores para se viver.
IMAGEM: Newton Santos/DC

