Reforma tributária desloca competição do varejo do imposto para a eficiência logística

Para a Peers Consulting, com a perda de relevância de incentivos fiscais, empresas passam a priorizar proximidade do consumidor, custos logísticos e gestão financeira. Para a Newmark, impactos sobre polos logísticos, como Extrema, em Minas (na foto), ainda não são relevantes

Fátima Fernandes
18/Jun/2026
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Reforma tributária desloca competição do varejo do imposto para a eficiência logística

Por décadas, a localização de centros de distribuição (CDs) no Brasil foi fortemente influenciada por incentivos de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços).

Com a reforma tributária, aprovada pela Emenda Constitucional 132/2023, as empresas tendem a migrar o foco na engenharia tributária para a eficiência logística e financeira.

Isso porque a tributação passa agora da origem para o destino do produto. Concentrar CDs em Minas Gerais ou Espírito Santo para vender em São Paulo perde parte da lógica econômica.

A localização dos CDs passa a depender mais de critérios operacionais, como custo de frete, proximidade do consumidor, velocidade de entrega e capacidade de abastecimento.

Logística, capital de giro e preço passam, portanto, a ser decisivos com a implementação gradual do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), novos tributos criados pela reforma tributária.

A análise é da Peers Consulting + Technology. Para a consultoria, o modelo tributário anterior elevou a complexidade logística no país e mascarou ineficiências operacionais.

Isso significa que parte dos ganhos de margem observados pelas empresas pode ter decorrido de incentivos fiscais, e não de eficiência estrutural.

Está posto um grande desafio para as empresas, que é concorrer em um ambiente sem incentivos fiscais.

Marcelo Ikaro, diretor-executivo da Peers, afirma que a nova lógica tributária favorece a instalação de CDs próximos dos consumidores.

“Se eu vendo para o Rio Grande do Sul, é melhor ter CD no Rio Grande do Sul”, afirma.

Polos atrativos

Esse movimento, de acordo com ele, já começou a ser observado no mercado brasileiro. Empresas de logística e de varejo estão revisitando as suas redes de distribuição.

Polos como Cajamar, Jundiaí, Vinhedo e Cabreúva, no interior paulista, seguem atraindo cada vez mais novos investimentos.

A Petlove, por exemplo, diz Ikaro, avalia ampliar sua presença logística no Estado de São Paulo.

Outras companhias, como Shopee e Track&Field, também seguem em movimento semelhante, de acordo com a consultoria. “Quem for o último a chegar vai pagar mais caro”, diz.

IBS e CBS já estão em fase de testes, com alíquotas simbólicas. A CBS entra em vigor de forma plena em 2027, enquanto a substituição completa do ICMS pelo IBS ocorrerá até 2033.

Para a Peers, o período entre 2026 e 2028 será crítico para o reposicionamento estratégico das empresas, antes da redução gradual do ICMS.

“Decisões sobre malha logística e realocação de capital que precisam estar concluídas em 2029 devem começar agora, já que contratos de galpões, obras e licenciamento têm prazos de 18 a 36 meses”, cita a Peers em artigo sobre “Os impactos da Reforma Tributária no Varejo”.

A recomendação é que as empresas iniciem ainda neste ano um diagnóstico de sua malha logística, com três objetivos: identificar centros de distribuição que perdem viabilidade sem incentivos fiscais, modelar alternativas com base em custo logístico e preparar a transição operacional.

Estoques, caixa e split payment

A reforma tributária também exige das empresas, de acordo com a Peers, uma revisão das políticas de estoque e de planejamento de demanda.

Com menor espaço para compensar ineficiências por meio de benefícios fiscais, decisões sobre níveis de estoque, reposição regional e nível de serviço têm impacto direto na competitividade.

“A maior proximidade dos CDs aos centros de consumo e uma malha mais enxuta podem reduzir o lead time de entrega e permitir estoques de segurança menores, liberando capital de giro”, de acordo com a Peers.

Esse ajuste se conecta também ao split payment, mecanismo de recolhimento de tributos no momento da transação.

No modelo atual, empresas recebem o valor integral da venda e recolhem os tributos posteriormente, em um intervalo de até 60 dias, conhecido como float tributário.

Com o split payment, o sistema financeiro separa automaticamente a parcela do IBS e da CBS no ato do pagamento, reduzindo esse espaço de financiamento implícito.

O impacto dessa mudança, de acordo com a Peers, tende a ser maior em setores de baixa margem e alto volume, como supermercados, atacarejo e farmácias, nos quais o capital de giro é mais sensível a variações de caixa.

Para a Peers, empresas que hoje utilizam esse período de recolhimento como fonte indireta de financiamento precisarão buscar alternativas, como crédito bancário, otimização do ciclo de caixa, ajustes de estoque ou renegociação com fornecedores.

Por isso, a recomendação da consultoria é que o impacto do split payment seja incorporado com urgência às projeções de fluxo de caixa, considerando a entrada plena da CBS em 2027.

Demanda sólida por galpões

A Newmark, uma das principais consultorias globais no setor imobiliário corporativo, ainda não observou efeitos relevantes decorrentes do fim dos incentivos fiscais em polos logísticos.

Mariana Hanania, head de Pesquisa e Inteligência de Mercado da Newmark, diz que em Extrema, por exemplo, a vacância segue baixa e a demanda por galpões de qualidade permanece sólida.

“O que pode acontecer é uma maior seletividade. As empresas vão pesar cada vez mais eficiência operacional, qualidade do ativo, tempo de entrega e acesso aos principais mercados consumidores, e cada vez menos a lógica tributária na escolha de novas localizações”, afirma.

Para ela, o fim dos incentivos fiscais em polos logísticos e industriais que se desenvolveram ancorados em benefício tende a provocar uma acomodação no mercado, mas não necessariamente uma retração estrutural da demanda.

De acordo com ela, nos últimos anos, o segmento logístico vem passando por um ciclo consistente de aquecimento, impulsionado principalmente pela expansão do e-commerce e pela necessidade de maior capilaridade nas operações de distribuição.

“Esse movimento levou empresas a buscar localizações estratégicas para reduzir prazos de entrega e custos logísticos, favorecendo a pulverização dos centros de distribuição pelo país.”

Regiões como Extrema, em sua avaliação, se destacam não apenas pelos incentivos fiscais, mas também por localização privilegiada próxima a grandes centros consumidores, boa infraestrutura viária e disponibilidade de terrenos.

Com a implementação gradual da reforma tributária, especialistas avaliam que a localização dos centros de distribuição, a gestão de estoques e a administração do capital de giro ganharão peso crescente na competitividade do varejo, reduzindo a influência que os incentivos fiscais exerceram sobre as decisões empresariais nas últimas décadas.

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IMAGEM: Eduardo Knapp/Folhapress

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