Conheça o varejo que está moldando as tendências mundiais

Ranking 100 Empresas Mais Influentes, da revista Time, traz recortes por setor pela primeira vez este ano e indica a seleção de 10 nomes que estão mudando a forma de pensar o varejo

Estela Cangerana, dos Estados Unidos
29/Mai/2026
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Conheça o varejo que está moldando as tendências mundiais

Novos modelos de negócio ou a volta por cima do tradicional? Estratégia voltada a mais tempo online ou solução para quem quer fugir das telas? Estímulo ao consumo ou reuso de recursos? Inteligência artificial (IA) no back office ou na linha de frente? Pode parecer contraditório, mas a revista Time, uma das mais prestigiadas publicações do setor e famosa pelas listas que elabora, enumerou empresas com todas essas apostas distintas (e outras mais) na sua seleção dos 10 nomes mais influentes do varejo de 2026. Na opinião dos especialistas, o compilado traz lições de quem soube inovar ou se reinventar para sobreviver.

O ranking faz parte das 100 Empresas: Líderes de Setor, recorte feito pela primeira vez neste ano, a partir da lista das 100 Empresas Mais Influentes, e conta com alguns nomes pouco – ou praticamente nada – conhecidos no Brasil. Ele é encabeçado pela norte-americana Quince, que aposta no “luxo acessível”, seguida pela francesa Vusion (de tecnologia em etiquetas eletrônicas), a tradicionalíssima livraria Barnes & Noble (adquirida pelo grupo Elliot), a francesa Back Market (dedicada a eletrônicos usados) e a norte-americana Warby Parker (expert em experimentação de óculos em casa), na quinta posição.

A lista ainda contempla um app de vendas por leilão (Whatnot), a empresa de delivery DoorDash, um serviço de aluguel de roupas (Nuuly), a marca de pelúcias Jellycat e a plataforma de e-commerce Shopify.

Segundo o analista de varejo e diretor da consultoria internacional GlobalData Retail, Neil Saunders, apesar das diferenças, no final todas trazem uma verdadeira lição do que realmente importa para o sucesso dos negócios. “O segredo é manter-se próximo do cliente e continuar evoluindo”, afirma. Na opinião dele, mais do que medir a influência em si – “Se fosse assim, Amazon e Walmart deveriam estar na lista pelo enorme impacto que têm no setor” -, a relação traz trajetórias muito interessantes, com estratégias inteligentes e inspiradoras.

Volta por cima

Entre elas, uma das mais surpreendentes é a da livraria Barnes & Noble, um negócio que chegou a ser dado como morto por muitos e que foi adquirido pelo grupo Elliot, proprietário da rede britânica Waterstones, em 2019. Desde então, a companhia se desprendeu do que era desnecessário para se voltar ao seu produto principal, os livros, e começou a explorar oportunidades de fortalecimento. Isso incluiu entender e se aproveitar da visibilidade que pode ser gerada para títulos por comunidades de leitores online e em plataformas como TikTok e, ao mesmo tempo, se apresentar como alternativa para quem quer passar mais tempo longe das telas, com a oferta de um bom livro físico.

“A Barnes & Noble contrariou a narrativa de que as livrarias físicas não têm futuro. Ela fez isso tornando as lojas mais envolventes e permitindo que os funcionários selecionem o tipo de livro mais adequado para o público local”, diz o analista.

Apesar de o faturamento da empresa não ser divulgado, a evolução do negócio pode ser medida em parte pelo programa de abertura de novas lojas. Foram 60 nos EUA em 2025 e está previsto um patamar semelhante até o final deste ano. Além disso, a livraria adquiriu a Books Inc. no segundo semestre do ano passado, em mais uma amostra de fôlego.

Mundos imersivos

Outro negócio que não tem nada de novo, mas mostra uma enorme sintonia e entendimento do seu público é a fabricante britânica de pelúcias Jellycat, fundada em 1999. Ela está presente em cerca de 8 mil lojas de 80 países, e viu seu faturamento saltar em 10 anos, de US$ 7 milhões em 2013 para US$ 252 milhões em 2023, e disparar mais uma vez no ano seguinte, para US$ 445 milhões em 2024 (último dado divulgado pela empresa).

A febre por pelúcias colecionáveis em todo o mundo ajudou, mas o segredo do sucesso da companhia vai muito além disso. “Se você observar a Jellycat, verá que ela gera muito engajamento com seus ótimos produtos e parcerias com varejistas que incluem espaços criativos em suas lojas. A marca é muito atraente tanto para crianças quanto para adultos”, explica Saunders.

A fabricante britânica de pelúcias Jellycat viu seu faturamento saltar de US$ 252 milhões em 2023 para US$ 445 milhões em 2024 (Imagem: divulgação)

 

Nos últimos três anos, a marca apostou em ativações e espaços imersivos em pontos de venda icônicos, começando com o Jellycat Diner, na FAO Schwarz em Nova York (EUA), seguindo com a Jellycat Patisserie no 5º andar da Galeria Lafayette em Paris (França), e o Jellycat Ski Club no The Grove, em Los Angeles (EUA). Possui ainda espaços dedicados em outras lojas renomadas, como a famosa Harrods, em Londres (Reino Unido), e vem expandindo em localidades da Itália, Dinamarca, Alemanha, Canadá e Estados Unidos, além de planos para Hong Kong, na Ásia.

Inovação para um novo perfil de público

Um dos maiores destaques da lista da Time, no entanto, é a Quince, primeiro nome no ranking e com valor de mercado atual de US$ 10,1 bilhões. A empresa da Califórnia (EUA), fundada em 2018, traz o conceito de luxo acessível e vem ganhando mercado a passos largos. Na prática, sua proposta é oferecer produtos com tecidos nobres e de alta qualidade a valores bem abaixo das marcas tradicionais do luxo. Para isso, negocia e contrata diretamente as fábricas que produzirão a linha.

O segredo, no entanto, está no uso da IA para ajudar a prever a demanda. Conforme revelou a própria responsável por estratégia de marca da Quince, Dakota Kate Isaacs, à revista. “Não se trata mais de ‘Vamos analisar a marca XYZ e ver o que ela faz’. Em vez disso, trata-se mais de ‘O que o consumidor realmente quer e onde existe a oportunidade de fazer isso mais rápido, com melhor qualidade e a um preço mais acessível?’.”

Enquanto a Quince faz a moda mais acessível, outras companhias chamam a atenção por inovarem na linha do reaproveitamento de recursos. Saunders destaca a Back Market, que inovou ao facilitar a venda de dispositivos eletrônicos antigos pelos consumidores, garantindo, ao mesmo tempo, que os compradores tenham confiança na aquisição de produtos usados.

No começo eram smartphones usados, depois tablets, computadores e, agora, até eletrodomésticos. A empresa dá garantia de um ano nos produtos. “Isso está funcionando bem, já que os consumidores buscam ganhar um dinheiro extra ou economizar na compra de eletrônicos”, diz.

Seguindo a forte tendência de consumo sustentável, está também a Nuuly, lançada em 2019 e que oferece aluguel mensal de roupas. Por US$ 98, o assinante pode ficar com seis peças durante um mês. Atualmente, são quase 400 mil assinantes ativos do serviço, que mantém armazéns e gestão logística próprios, lavanderia e estrutura para reparos das peças.

Tecnologia

Outras duas companhias listadas pela Time, a Vusion e a DoorDash, se destacam por tecnologias que já foram temas de reportagens do Diário do Comércio este ano. A primeira é especializada em cartões de preços digitais para lojas (chamados de Electronic Shelf Labels – ESLs). Além de substituir os papéis, os novos displays de prateleira permitem acesso a informações dos produtos, promoções especiais e disponibilidade de estoque, entre outras coisas.

Os ESLs utilizam IA e são vistos como recursos que apoiam a gestão das lojas físicas. O DC mostrou, em reportagem em fevereiro, como a Loja do Amanhã (Store of Tomorrow), em Singapura, vem utilizando tecnologia semelhante.

Já no caso da empresa de delivery DoorDash, chama a atenção a expansão das entregas autônomas, feitas por meio dos famosos robozinhos que percorrem curtas distâncias. A incursão da companhia na área começou com o robô Dot, em Phoenix (EUA), no ano passado. Na sequência, a companhia fechou acordo com a Serve Robotics para levar a tecnologia a várias outras cidades do país. A Serve possui uma frota com mais de 2 mil robôs de entrega em diversas localidades dos Estados Unidos, conforme revelou reportagem do DC no último mês de março.

A lista completa das 10 empresas que devem influenciar o varejo em 2026 da revista Time pode ser conferida neste link (em inglês).

 

IMAGEM: Freepik

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