Redução de jornada deve aumentar em até 38% custo da folha de pagamento no setor de Turismo
Representantes do setor afirmaram, em audiência pública na Câmara dos Deputados, que pequenas empresas serão mais afetadas, pois perderão mão de obra para as grandes. Empresários defendem negociação coletiva

A possível redução da escala de trabalho 6x1, que tramita na Câmara dos Deputados por meio de Propostas de Emendas à Constituição (PECs), poderá aumentar entre 28% e 38% os custos da folha de pagamento na área do Turismo. Outro efeito esperado da medida no setor é a falta de mão de obra, principalmente nas pequenas empresas que perderão seus empregados para os grandes empreendimentos turísticos, que precisarão de mais trabalhadores para ocupar as vagas.
O cenário, que varia de acordo com o ramo de atividades, foi traçado por integrantes do setor em audiência pública na Comissão do Turismo da Câmara dos Deputados, nesta quarta-feira, 8/4, que também teve participação de dirigentes dos ministérios do Trabalho e Emprego e do Turismo.
Organizador dos debates, o deputado Bibo Nunes (PL-RS) classificou a proposta de redução da jornada de trabalho como “demagogia em ano eleitoral”. Para ele, o Turismo será uma das atividades mais abaladas caso a mudança ocorra de fato. “Espero que essa discussão ganhe eco Brasil afora.”
Representante de mais de três mil empreendimentos no país, a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH) demonstra-se preocupada com a falta de mão de obra para suprir a lacuna de um setor já com escassez de trabalhadores. O presidente da entidade, Sérgio Gaspar, defendeu a negociação coletiva como o caminho para se discutir a redução da escala de trabalho, o mesmo mecanismo apoiado pelo Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB), que considera inapropriada a tramitação da proposta em ano eleitoral.
O presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Paulo Solmucci Júnior, relatou que o custo total da redução da jornada para o consumidor poderá chegar a 15% no setor de Serviços e, também, chamou a atenção para a falta de trabalhadores. “Onde a empresa vai encontrar alguém para trabalhar no sexto dia? Um hotel rico vai tomar de um pobre, um empreendimento maior vai tirar do pequeno e precarizar os pequenos negócios”, salientou.
No Turismo, de acordo com dados do Ministério do Trabalho e Emprego, apresentados na audiência, 53,6% dos empregados fazem a escala 5x2 e 46,34%, a 6x1. No setor, o impacto direto estimado na massa salarial será de 5,6%. Para a representante da pasta, Rafaele Menezes, que defendeu a redução da jornada, a medida levará à queda no índice de falta, aumento da produtividade e melhoria da qualidade do serviço prestado.
A avaliação do ministério foi contestada pelos representantes do setor produtivo e parlamentares. “Na verdade, o trabalhador não estará protegido. Haverá um aumento da informalidade e da pejotização, algo que o ministério não quer”, ressaltou o vice-presidente de Relações Institucionais da Associação Brasileira de Resorts, Antônio Dias.
O diretor do Ministério do Turismo, Aldo Valentin, destacou a necessidade de se ter um diálogo para chegar a um consenso para implementação da mudança. “Precisa pensar numa transição regulatória, levando em conta a diversidade do setor e valorização da negociação coletiva. Precisamos pensar também no bem-estar dos empreendedores que investem no setor”, reforçou.
Presidente da Comissão, a deputada Daniela Reinehr (PL-SC) alertou para o prejuízo da medida para trabalhadores e empregadores. “Estamos mexendo diretamente na estrutura de funcionamento de todo o setor, com aumento do custo da mão de obra, sem que tenhamos um estudo específico sobre os reais benefícios, e isso poderá inviabilizar todo um setor econômico”. Ela argumenta a necessidade de se encontrar soluções equilibradas para a preservação do ambiente de negócios e a competitividade das empresas.
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IMAGEM: João Mendes

