[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
A Bolsa de Valores de São Paulo (B3) e o governo estadual realizam nesta quinta-feira (26), a partir das 10h, leilão para concessão do Centro Administrativo Campos Elíseos, futura sede do Executivo paulista. Na última segunda-feira (23), o governo recebeu duas propostas, dos consórcios Acciona-Construcap e MEZ-KZK Novo Centro (liderado pelo Grupo Zetta). Segundo a Secretaria de Parcerias em Investimentos, os recursos na área – na região central da capital – são estimados em R$ 6 bilhões. O projeto prevê a construção de sete edifícios e dez torres. Ali ficará o gabinete do governador – hoje no Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi –, “além de secretarias e órgãos estaduais, hoje distribuídos por mais de 40 endereços na cidade”. A mudança, ainda sem prazo definido, é vista como fundamental pelo setor produtivo para o processo de revitalização do Centro de São Paulo. O governo estima a criação de 38 mil empregos durante as obras, além de 2,8 mil vagas formais no comércio e serviços.
O projeto foi implementado por meio de parceria público-privada. Também prevê obras, reformas e adequações no complexo que inclui o Palácio dos Campos Elíseos e entorno. A parceria inclui gestão da infraestrutura e manutenção das unidades administrativas. O governo estadual espera ainda reduzir despesas com aluguel e manutenção predial, com a construção de edifícios próprios. Além disso, pretende “contribuir para a requalificação da região central e liberar imóveis desocupados para projetos habitacionais de interesse social”. De acordo com a B3, o critério de julgamento no leilão “será o de maior desconto sobre a contraprestação pública máxima”. De acordo com a Casa Civil, a contraprestação mensal máxima está fixada em R$ 76,6 milhões. O contrato é de 30 anos.
REQUALIFICAÇÃO – “A iniciativa moderniza a gestão pública, reduz custos administrativos e fortalece a requalificação urbana do centro da capital”, afirmou a Casa Civil, que espera com isso preservar o patrimônio histórico e ampliar serviços à população. “A nova estrutura abrigará cerca de 22 mil servidores e contará com teatro, auditórios, salas multiuso e outros espaços.” Para o secretário estadual de Projetos Estratégicos, Guilherme Afif Domingos, trata-se de “um dos maiores projetos arquitetônicos” da história da capital. “Estamos falando de uma iniciativa que vai muito além da reorganização do Estado”, disse Afif. “É um projeto que alia eficiência administrativa, recuperação do patrimônio histórico e transformação social no coração de São Paulo.” Segundo ele, o governo vai “reposicionar o centro de São Paulo como um espaço de convivência, cidadania e desenvolvimento humano”.
Ainda segundo a Casa Civil, o governo estadual “realizará os pagamentos previstos no contrato, de acordo com o desempenho da Concessionária, para garantir a sustentabilidade financeira do projeto”. O projeto inclui restauro de 17 imóveis tombados e a ampliação em mais de 40% das áreas verdes do Parque Princesa Isabel. Está prevista área de 25 mil metros quadrados para comércio e serviços, “fortalecendo o desenvolvimento urbano e a economia local, além da construção de um novo terminal de ônibus”. Em fevereiro do ano passado, foram realizadas duas audiências públicas sobre o tema. Uma consulta pública recebeu 268 contribuições. O projeto foi escolhido por meio de concurso público organizado pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB). O autor da proposta vencedora foi o escritório Ópera Quatro.
Em entrevista recente à AGÊNCIA DC NEWS, o presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Roberto Mateus Ordine, disse considerar “fundamental” o projeto da futura sede administrativa. “Esse também foi um erro da cidade de São Paulo no passado, em tirar do Centro os prédios do governo”, afirmou. “É preciso que haja o adensamento.”
VOLTA ÀS RAÍZES – No centro da nova fase da região está o Palácio Campos Elíseos. Inaugurado em 1899 como residência de Elias Antônio Pacheco Chaves, um produtor de café, o edifício foi encomendado com base em um castelo na França. Treze anos depois, virou a segunda sede do que seria o atual estado de São Paulo. A primeira ficava no Pátio do Colégio, desde que se criou a capitania de São Paulo (1720), que virou província (1821) e estado (na primeira metade do século passado). O Palácio foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) em 1977 e pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) em 1991 – até recentemente, abrigava o Museu das Favelas, que agora funciona junto ao Pátio do Colégio. Por cinco décadas, nos Campos Elíseos concentravam-se figuras da política e da cultura paulistas.
Em outubro de 1967, dois anos após a saída do governo para o Palácio dos Bandeirantes, o Palácio dos Campos Elíseos foi destruído por um incêndio – a filha mais nova do governador Abreu Sodré, Maria do Carmo, conseguiu salvar um LP autografado por Caetano Veloso. O bairro, porém, já não era endereço de boa parte da elite paulista – desde os anos 1930, com a crise do café e a ascensão de um bairro vizinho, Higienópolis, onde famílias da aristocracia começaram a se instalar. O declínio mais evidente, no entanto, se deu após a saída oficial do governo do Campos Elíseos. Nas décadas seguintes, a decadência do entorno se ampliou. História que, segundo o governo do Estado de São Paulo, deve começar a ser reescrita a partir de amanhã.